Reunião Ministerial de 54 Países em Washington Marca Ponto de Virada
Em 4 de fevereiro de 2026, os EUA sediaram a primeira Reunião Ministerial de Minerais Críticos em Washington, com representantes de 54 países e da Comissão Europeia. Liderada pelos secretários Marco Rubio e o vice-presidente JD Vance, a reunião lançou o FORGE (Fórum de Engajamento Geopolítico de Recursos) como sucessor da Parceria de Segurança Mineral (MSP), com a Coreia do Sul na presidência até junho de 2026. Foram assinados 11 novos acordos-quadro bilaterais, totalizando 21 em cinco meses. O governo americano mobilizou mais de US$ 30 bilhões em cartas de interesse, investimentos e empréstimos para projetos de minerais críticos, incluindo um empréstimo de US$ 10 bilhões para o Projeto Vault, uma reserva estratégica doméstica. Este evento representa a mudança mais significativa na corrida global por recursos estratégicos, passando do diálogo multilateral para financiamento concreto e construção de alianças.
Por que Minerais Críticos São o Novo Petróleo
Minerais críticos — lítio, cobalto, terras raras, grafite e níquel — são os alicerces da economia do século XXI. Alimentam veículos elétricos, turbinas eólicas, painéis solares, semicondutores, infraestrutura de IA e sistemas de defesa. A China domina o processamento: cerca de 90% da refinação de terras raras, 70% do processamento de cobalto e 60% da refinação de lítio. Segundo a AIE, até 2035 a China fornecerá mais de 60% do lítio refinado e cerca de 80% da grafite e terras raras para baterias. Essa concentração cria extrema vulnerabilidade, tornando a diversificação da cadeia de suprimentos uma necessidade de segurança nacional. A geopolítica dos minerais críticos rivaliza com o petróleo em importância estratégica.
FORGE: Do Diálogo Multilateral a uma Zona de Comércio Preferencial
O que é o FORGE?
FORGE — Fórum de Engajamento Geopolítico de Recursos — é uma coalizão plurilateral que visa criar uma zona de comércio e investimento preferencial para minerais críticos. Ao contrário do MSP, focado em capital conjunto, o FORGE opera com modelo de 'adesão por comércio': a participação condicionada a regras comerciais compartilhadas. Inclui pisos de preço coordenados, tarifas ajustáveis (potencialmente sob Seção 232) e mecanismos de resposta rápida. O VP Vance descreveu como uma "zona de comércio preferencial protegida de choques externos através de preços de referência executáveis". Os EUA estão em negociações iniciais com a UE e Japão para formalizar a plataforma, visando cobrir dois terços da economia global.
Velocidade de Acordos Bilaterais
A administração Trump assinou 21 acordos-quadro bilaterais em cinco meses, ritmo sem precedentes. Eles incluem compromissos vinculativos sobre triagem de investimentos, transferência de tecnologia e acordos de compra. Exemplos notáveis: Fundo de Investimento de Reconstrução EUA-Ucrânia (abril de 2025), com o depósito de lítio Dobra, acordos com Argentina (lítio), Marrocos (cobalto e fosfato) e Filipinas (níquel). Os acordos bilaterais de recursos dos EUA estão ligados à arquitetura plurilateral do FORGE.
Surto de Financiamento de US$ 30 Bilhões
A reunião ministerial mobilizou mais de US$ 30 bilhões em apoio governamental. O destaque é o Projeto Vault, um empréstimo direto de US$ 10 bilhões do EXIM para a Reserva Estratégica de Minerais Críticos. Esta parceria público-privada, com US$ 2 bilhões adicionais em capital privado, estocará matérias-primas essenciais em instalações americanas para proteger fabricantes de choques de oferta. Empresas participantes: Clarios, GE Vernova, Western Digital, Boeing, Hartree Partners, Mercuria Americas e Traxys. Outros investimentos: US$ 1,3 bilhão para o projeto Reko Diq (cobre-ouro) no Paquistão e financiamento para processamento de terras raras na Austrália e Brasil. O Projeto Vault reserva estratégica visa retorno líquido positivo para contribuintes.
Impulso Paralelo da Europa: Lei de Matérias-Primas Críticas
A UE segue sua própria estratégia com a Lei de Matérias-Primas Críticas (CRMA), em vigor desde maio de 2024. Define metas de extração doméstica (10% do consumo), processamento (40%) e reciclagem (25%) até 2030, limitando a dependência de um único país a 65%. Em dezembro de 2025, a Comissão Europeia lançou o Plano de Ação ReSourceEU, com €3 bilhões em 2026 para 60 projetos estratégicos, incluindo a extração de lítio da Vulcan Energy na Alemanha e apoio à mina de molibdênio da Greenland Resources. A UE também imporá restrições à exportação de ímãs permanentes e baterias de lítio para não-OCDE até setembro de 2026, e criará um Centro Europeu de Matérias-Primas Críticas. Concluiu 15 parcerias internacionais, incluindo com a África do Sul, e visa acordo com o Brasil.
Investimentos dos Estados do Golfo: Novo Ator Geopolítico
Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Catar estão migrando do petróleo para minerais críticos como parte da diversificação econômica. A Visão 2030 saudita visa transformar o setor mineral, com investimentos em fosfato, ouro, cobre e terras raras. Os Emirados assinaram acordo bilateral com os EUA e participam da Pax Silica. Fundos soberanos do Golfo estão investindo em projetos na África, Ásia Central e América Latina. Esta estratégia de minerais críticos dos Estados do Golfo adiciona nova dimensão à arquitetura geopolítica.
Pode o FORGE Desafiar o Domínio Chinês?
A questão central é se essas iniciativas podem desafiar o domínio chinês no processamento. O Council on Foreign Relations (CFR) argumenta que os EUA não podem superar a China em mineração ou processamento, devendo buscar estratégia de inovação: ímãs sem terras raras, recuperação de rejeitos e reciclagem. A expansão chinesa suprimiu preços — o lítio caiu mais de 80% desde o pico de 2022 — dificultando a competição. Contudo, os pisos de preço coordenados do FORGE podem criar mercado protegido para produtores aliados. O Atlantic Council observa que transformar acordos bilaterais em sistema plurilateral funcional cobrindo dois terços da economia global é desafio significativo. O desafio ao monopólio chinês de minerais dependerá de vontade política sustentada, participação privada e avanços tecnológicos.
Perspectivas de Especialistas
"Minerais críticos são o novo petróleo, e a Reunião Ministerial de 2026 marca a transição decisiva da conversa para a ação", disse um alto funcionário do Departamento de Estado. "O FORGE cria uma zona de comércio preferencial com regras executáveis, apoiada por mais de US$ 30 bilhões em financiamento." O ministro das Relações Exteriores da Coreia do Sul, Cho Hyun, expressou compromisso em expandir a cooperação. Analistas alertam que a profunda integração da China nas cadeias globais não pode ser facilmente desfeita.
FAQ
O que é FORGE?
FORGE (Fórum de Engajamento Geopolítico de Recursos) é uma coalizão plurilateral liderada pelos EUA lançada em fevereiro de 2026, sucedendo a Parceria de Segurança Mineral. Visa criar uma zona de comércio e investimento preferencial para minerais críticos com pisos de preço e tarifas ajustáveis.
Quanto financiamento foi mobilizado?
O governo dos EUA mobilizou mais de US$ 30 bilhões em cartas de interesse, investimentos e empréstimos, incluindo US$ 10 bilhões para o Projeto Vault.
O que é a Lei de Matérias-Primas Críticas da UE?
A CRMA, em vigor desde maio de 2024, estabelece metas de extração (10%), processamento (40%) e reciclagem (25%) até 2030, limitando dependência de um único país a 65%. O plano ReSourceEU compromete €3 bilhões em 2026.
Pode o FORGE reduzir a dependência da China?
Os pisos de preço coordenados do FORGE visam criar um mercado protegido, mas a dominação chinesa (60-80% até 2035) e vantagens de custo significam que inovação e reciclagem também serão essenciais.
Qual o papel dos Estados do Golfo?
Estados do Golfo como Arábia Saudita, EAU e Catar estão investindo em mineração e processamento globalmente, usando fundos soberanos para financiar cadeias de minerais críticos. Participam da Pax Silica e assinaram acordos bilaterais com os EUA.
Conclusão: Uma Nova Arquitetura Geopolítica
A Reunião Ministerial de 2026 e o lançamento do FORGE representam uma mudança de paradigma na abordagem ocidental à segurança de recursos estratégicos. Combinando acordos bilaterais, regras comerciais plurilaterais, financiamento público massivo e parcerias privadas, os EUA e aliados estão construindo uma nova arquitetura geopolítica em torno de lítio, terras raras e cobalto. Se essa arquitetura pode desafiar o domínio chinês até 2035 permanece incerto, mas a reunião de fevereiro de 2026 preparou o cenário para a competição mais consequente em recursos estratégicos desde as crises do petróleo dos anos 1970.
Fontes
- U.S. Department of State: 2026 Critical Minerals Ministerial
- Atlantic Council: US Critical Minerals Policy Goes Collaborative with FORGE
- EXIM: Project Vault Announcement
- CFR: Leapfrogging China's Critical Minerals Dominance
- Mining Magazine: EU to Spend €3B in 2026 on Critical Raw Materials
- IISS: The Gulf States' Push for Critical Minerals
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