Em uma reviravolta dramática, o presidente russo Vladimir Putin sinalizou que a guerra na Ucrânia pode estar 'chegando ao fim', mesmo enquanto suas forças lançavam os ataques aéreos mais mortíferos contra Kyiv em meses, matando pelo menos 24 pessoas e destruindo um prédio residencial. Falando após o desfile do Dia da Vitória em escala reduzida em 9 de maio de 2026, Putin sugeriu disposição para negociar, mas analistas alertam que suas condições equivalem a uma capitulação ucraniana. Enquanto isso, relatos de crescente descontentamento dentro do Kremlin e entre as elites russas surgiram, embora especialistas digam que Putin ainda mantém as 'rédeas firmemente nas mãos'.
Contexto: Um cessar-fogo destruído pela violência
Um cessar-fogo de três dias mediado pelos EUA, que começou em 9 de maio, pretendia abrir caminho para trocas de prisioneiros e negociações de paz mais amplas. No entanto, em poucos dias, a Rússia lançou uma enorme barragem de dois dias de mais de 1.560 drones e 56 mísseis em toda a Ucrânia, visando Kyiv, Kharkiv, Odesa e outras cidades. Na capital, um bloco de apartamentos de nove andares no distrito de Darnytskyi foi partido ao meio por um míssil balístico, matando 24 pessoas, incluindo três crianças. Alarmes de ataque aéreo soaram por quase 11 horas seguidas. O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky acusou a Rússia de acumular armas para sobrecarregar as defesas aéreas, prometendo retaliação. O ataque marcou o pior ataque a Kyiv nos últimos meses, destruindo qualquer esperança restante de que o cessar-fogo pudesse ser mantido.
A coincidência dos ataques com os comentários conciliatórios de Putin deixou muitos observadores perplexos. Em 9 de maio, Putin disse a repórteres que 'a causa está caminhando para um fim', uma frase cuidadosamente analisada por observadores do Kremlin. Ele culpou os líderes ocidentais 'globalistas' pela guerra e reiterou que a paz só viria nos termos da Rússia, incluindo a neutralidade ucraniana, o reconhecimento dos territórios anexados e a desmilitarização. As negociações de paz Rússia-Ucrânia permanecem estagnadas, com o Kremlin afirmando que um acordo final pode levar muito tempo.
Sinais de tensão dentro do Kremlin
Apesar da postura pública confiante de Putin, vários relatos sugerem tensões subjacentes. Uma avaliação de inteligência europeia vazada, publicada pelo Financial Times, alegou que Putin se tornou cada vez mais recluso, com sua segurança pessoal sob vigilância intensificada. The Economist publicou um artigo anônimo de um alto funcionário russo sugerindo que alguns nos círculos governamentais estão 'se distanciando cautelosamente' de Putin. Enquanto isso, o político de oposição Boris Nadezhdin, que tentou desafiar Putin na eleição de 2024, disse ao The New York Times que a sociedade russa está no 'primeiro estágio de despertar', com a economia se deteriorando rapidamente desde o início do ano.
A economia da Rússia mostra sinais claros de tensão. Os déficits orçamentários excederam as metas anuais em 1,5 vezes, a inflação está corroendo as pensões e as sanções ocidentais continuam a fazer efeito. Os industriais estão cada vez mais preocupados com o confisco de empresas e sua redistribuição para leais a Putin. Até os 'Z-bloggers' pró-guerra começaram a criticar a falta de vitórias decisivas no campo de batalha. A crise econômica russa sob sanções está alimentando o descontentamento público, embora a dissidência aberta permaneça rara devido ao aparato de segurança generalizado.
Descontentamento da elite ou ilusão ocidental?
A especialista em Rússia Helga Salemon do Centro de Estudos Estratégicos de Haia (HCSS) adverte contra a leitura excessiva desses relatos. 'As histórias dependem de fontes anônimas e são cronometradas suspeitamente bem', diz ela. 'Podem fazer parte da guerra de informação travada pelas agências de inteligência ocidentais.' Ela insiste que 'Putin ainda tem as rédeas firmemente nas mãos.' O ex-correspondente em Moscou Hubert Smeets concorda que o aparato repressivo é forte demais para qualquer revolta imediata. No entanto, ele observa uma luta crescente entre o bloco de segurança e o bloco econômico dentro do governo. 'As forças de segurança querem continuar lutando; os economistas veem o país sangrando até a morte', explica Smeets.
Uma análise recente do Lansing Institute estima uma probabilidade de 20-30% de uma tentativa séria de golpe dentro de 12 a 18 meses, embora um golpe bem-sucedido seja avaliado em apenas 10-15%. O cenário mais provável é uma transição gerenciada pela elite, em vez de uma derrubada violenta. Ainda assim, o próprio comportamento de segurança do Kremlin — reduzindo as aparições públicas de Putin, aumentando a triagem de várias camadas e expandindo a vigilância da equipe — sugere um regime que teme ameaças internas.
Impacto e implicações
A contradição entre o discurso de paz de Putin e o bombardeio intensificado de Kyiv tem implicações profundas. Para os ucranianos, isso reforça a crença de que a Rússia usa cessar-fogos para se reagrupar e rearmar. 'Eles acumulam mísseis durante os períodos de calma e depois desencadeiam o inferno', disse um morador de Kyiv à mídia local. Os ataques também complicaram os esforços de mediação do presidente dos EUA, Donald Trump. Trump havia intermediado a trégua de três dias e expressou esperança de estendê-la, mas os ataques a Kyiv atraíram fortes críticas, com Trump dizendo que o ataque poderia atrasar os esforços de paz. Enquanto isso, a troca de prisioneiros que acompanhou o cessar-fogo — 205 prisioneiros de guerra trocados de cada lado — oferece um raro vislumbre de humanidade em meio à carnificina.
Para Putin, a mensagem dupla pode ter como alvo audiências diferentes: para o público russo, ele sinaliza um fim eventual para a 'operação militar especial' para gerenciar o cansaço da guerra; para o Ocidente, ele projeta força e intransigência. Mas, como a escalada da guerra Rússia-Ucrânia em 2025 mostrou, a lacuna entre a retórica e a realidade no terreno continua vasta. A guerra, agora em seu quinto ano, matou centenas de milhares, deslocou milhões e remodelou a geopolítica global.
Perguntas frequentes
Putin realmente disse que a guerra está acabando?
Sim, em 9 de maio de 2026, após o desfile do Dia da Vitória, Putin afirmou que a guerra está 'chegando ao fim', mas condicionou isso à capitulação da Ucrânia — reconhecendo o controle russo sobre territórios anexados e abandonando as aspirações à OTAN.
Por que a Rússia atacou Kyiv durante um cessar-fogo?
A Rússia acusou a Ucrânia de violar a trégua e alegou que os ataques foram retaliação por ataques de drones ucranianos. A Ucrânia nega, dizendo que a Rússia usou o cessar-fogo para acumular munições.
O poder de Putin está enfraquecendo?
Surgiram relatos de descontentamento da elite e tensão econômica, mas a maioria dos especialistas concorda que o aparato repressivo de Putin permanece forte. Um golpe é possível, mas improvável a curto prazo.
Qual foi o número de mortos nos ataques a Kyiv em maio de 2026?
Pelo menos 24 pessoas foram mortas, incluindo três crianças, e dezenas ficaram feridas quando um míssil atingiu um prédio residencial no distrito de Darnytskyi, em Kyiv.
Qual é o papel dos EUA?
O presidente Trump intermediou um cessar-fogo de três dias e uma troca de prisioneiros, mas a violência renovada complicou seus esforços de paz. Os EUA continuam fornecendo ajuda militar à Ucrânia.
Fontes
Este artigo é baseado em reportagens da NOS, Reuters, Al Jazeera, The Guardian, CNN, Foreign Policy e Lansing Institute. As citações diretas de Hubert Smeets e Helga Salemon são do artigo original da NOS por Wessel de Jong.
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