Na segunda metade de 2026, a geopolítica dos minerais críticos deixou de ser tema de especialistas para se tornar a linha de frente da competição global. Lítio, cobalto, terras raras e cobre são instrumentos de pressão numa corrida marcada pelo controle chinês de mais de 60% do lítio e cobalto refinados até 2035 — e por contramedidas ocidentais e do Golfo.
Por que 2026 é um ponto de virada
Três fatores explicam a virada. Primeiro, os EUA passaram da coordenação multilateral a acordos bilaterais agressivos. Em 4 de fevereiro de 2026, Washington sediou a primeira Cúpula Ministerial de Minerais Críticos, com 54 países e a Comissão Europeia. Marco Rubio anunciou onze novos marcos bilaterais e o FORGE, apoiado por mais de US$ 30 bilhões.
A ferramenta mais marcante é o Project Vault, reserva estratégica público-privada de US$ 12 bilhões liderada por empréstimo de US$ 10 bilhões do Exim Bank, com participações governamentais em empresas como MP Materials e Lithium Americas. O Estoque de Defesa Nacional dos EUA foi complementado por essa reserva, sinalizando preços mínimos e gatilhos de disrupção.
Segundo, a UE corre para implementar a Lei de Matérias-Primas Críticas, com 60 Projetos Estratégicos. As metas de 2030 preveem 10% de extração doméstica, 40% de processamento e 25% de reciclagem, com no máximo 65% de uma matéria-prima vinda de um único terceiro país — mas o financiamento, cerca de €3 bilhões, está longe do necessário.
Terceiro, o 15º Plano Quinquenal chinês reforça a consolidação estatal do processamento de terras raras. A China já controla cerca de 90% do processamento de terras raras e 80% do grafite para baterias, e suas restrições à exportação provocaram altas de preços de até seis vezes.
Novos entrantes complicam a rivalidade EUA-China
A corrida não é só Washington contra Pequim. Arábia Saudita e Emirados destinam mais de US$ 100 bilhões, via fundos soberanos, à compra de ativos na África, América Latina e Ásia Central. A Manara Minerals avança na refinação doméstica, incluindo uma planta de separação de terras raras com a MP Materials; o consórcio Orion foca cobre, níquel, cobalto e terras raras. Ambos se posicionam como polos neutros, criando um terceiro polo na cadeia global de minerais críticos.
Impacto na segurança energética e na política industrial
O embate afeta a transição energética: baterias, turbinas eólicas, painéis solares e defesa dependem desses minerais. Segundo Olena Borodyna, do ODI, o segundo governo Trump usou alavancas domésticas — participações acionárias, apoio a preços e cerca de US$ 7,5 bilhões — abandonando o multilateralismo do G7. Para a Foreign Policy, a parceria reflete necessidade, não confiança. A RDC fornece cerca de 73% do cobalto global, e o Corredor de Lobito rivaliza com investimentos chineses.
O que dizem os especialistas
Analistas alertam que reconstruir refinação independente pode levar de 20 a 30 anos, enquanto a janela para ação estratégica pode ser de 12 a 18 meses. O IISS e o ODI apontam os poderes intermediários do Golfo como principal fator imprevisível.
FAQ: geopolítica dos minerais críticos em 2026
O que são minerais críticos? Matérias-primas essenciais à economia e à segurança nacional, como lítio, cobalto, terras raras, cobre, níquel, grafite e germânio, usadas em baterias, eletrônicos, defesa e energia limpa.
Por que a China domina o processamento? Décadas de capacidade integrada de refinação garantiram cerca de 90% do processamento de terras raras, 80% do grafite e mais de 60% do lítio e cobalto refinados, permitindo usar controles de exportação como alavanca.
O que é o Project Vault? Reserva estratégica público-privada de US$ 12 bilhões lançada em fevereiro de 2026, com empréstimo de US$ 10 bilhões do Exim Bank e gatilhos de liberação em caso de disrupção.
Como a UE responde? A Lei de Matérias-Primas Críticas selecionou 60 Projetos Estratégicos e fixou metas para 2030, mas o financiamento segue insuficiente.
Qual o papel do Golfo? Arábia Saudita e Emirados investem mais de US$ 100 bilhões em polos neutros de processamento, formando um terceiro polo.
Conclusão: uma janela que se estreita
Em 2026, a fragmentação transatlântica e a ascensão dos intermediários do Golfo dificultam a coordenação multilateral, mesmo com a demanda acelerando. Se o Ocidente converterá acordos e estoques em cadeias resilientes — antes que a dominância chinesa de 2035 seja irreversível — definirá a próxima década.
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