A corrida global por minerais críticos — lítio, cobalto, terras raras e cobre — sempre foi enquadrada como uma história de escassez. Governos em Washington, Bruxelas e Pequim investiram bilhões para garantir acesso a esses insumos essenciais para veículos elétricos, turbinas eólicas e sistemas de defesa. Mas uma análise crescente, incluindo o UNCTAD Global Trade Update (Junho 2026) e a análise de minerais críticos do ODI para 2026, agora aponta para um excesso de oferta emergente de vários minerais-chave até o final de 2026. Esse excedente pode pressionar os preços, sobrecarregar novas instalações de processamento e, paradoxalmente, aprofundar a dependência mundial da capacidade de refino subsidiada pela China. A questão estratégica é se as nações consumidoras podem usar essa janela para construir cadeias de suprimentos diversificadas — ou se o colapso dos preços estagnará o investimento e dará a Pequim uma alavancagem ainda maior a longo prazo.
Da Escassez ao Excedente: A Onda de Oferta
Após anos de subinvestimento, uma onda de novos projetos de mineração está entrando em operação simultaneamente. No lítio, operações australianas de espodumênio, expansões de salmoura chilenas e novos projetos africanos estão inundando um mercado já amolecido pela adoção mais lenta de VEs na Europa e China. Os preços do carbonato de lítio, que atingiram o pico de mais de US$ 80.000 por tonelada no final de 2022, se estabilizaram na faixa de US$ 13.000–17.000 durante 2025–2026, de acordo com rastreadores do setor. Analistas da Skillings.net projetam que 2026 será o ano em que o preço de equilíbrio finalmente se estabilizará, mas apenas após cortes significativos de produção e redução de estoques.
Para o cobalto, o cenário é mais complexo. A República Democrática do Congo (RDC), que produziu 74,5% do cobalto global em 2024, impôs uma proibição de exportação em fevereiro de 2025, depois transicionando para um sistema de cotas limitando as exportações anuais a 96.600 toneladas para 2026–2027. Isso elevou os preços do cobalto de cerca de US$ 20.000/tonelada no início de 2025 para mais de US$ 56.000/tonelada em maio de 2026. No entanto, as instalações de lixiviação ácida de alta pressão (HPAL) da Indonésia estão acelerando, com produção prevista para crescer 39% para 53.318 toneladas em 2026. A cadeia global de suprimentos de cobalto fica assim entre restrições de oferta congolesas e expansão indonésia, criando um déficit estrutural projetado de 10.700 toneladas para 2026.
As terras raras apresentam uma dinâmica diferente. A China controla cerca de 70% da produção global de terras raras e quase 90% da capacidade de processamento. Em 2025, Pequim impôs controles de exportação sobre elementos-chave como samário, disprósio e térbio em resposta às tarifas dos EUA, desencadeando aumentos de preço de seis vezes e taxas de aprovação de licenciamento abaixo de 25% para empresas europeias. No entanto, novos projetos fora da China — incluindo o projeto Wicheeda na Colúmbia Britânica e a Estrutura da Iniciativa de Minerais Críticos do Quad anunciada em maio de 2026 — estão começando a se materializar. Os parceiros do Quad (Austrália, Índia, Japão e EUA) prometeram até US$ 20 bilhões em apoio governamental e privado para fortalecer as cadeias de suprimentos.
O Paradoxo dos Preços: Preços Baixos, Alta Dependência
A dinâmica de excesso de oferta é mais aguda para lítio e, em menor grau, níquel. Preços baixos estão comprimindo as margens dos mineradores fora da China, muitos dos quais dependem de operações de custo mais alto. Na Austrália, várias minas de lítio reduziram a produção ou adiaram expansões. No Canadá e nos EUA, mineradores juniores lutam para obter financiamento à medida que o apetite dos investidores diminui. Isso cria um ciclo vicioso: preços baixos desencorajam novos investimentos, o que, por sua vez, prolonga a dependência do processamento chinês.
O domínio da China no refino é impressionante. De acordo com a análise do ODI, a China deve fornecer mais de 60% do lítio e cobalto refinados, e cerca de 80% do grafite de grau de bateria e terras raras até 2035. Os subsídios estatais de Pequim permitem que seus processadores operem com margens mais baixas que os concorrentes ocidentais, o que significa que um colapso de preços atinge os players não chineses com mais força. Como um executivo do setor disse ao Informed Clearly: 'Quando os preços caem, as empresas estatais chinesas podem enfrentar a tempestade. Empresas privadas ocidentais não podem.'
A Lei de Matérias-Primas Críticas da UE define metas de 10% de extração doméstica e 40% de processamento doméstico até 2030, com €3 bilhões alocados. Mas o financiamento atual é insuficiente, e o ambiente de preços baixos dificulta a atração de capital privado. Os EUA mobilizaram mais de US$ 30 bilhões através de iniciativas como FORGE (Fórum de Engajamento Geostratégico de Recursos) e Projeto Vault, uma reserva estratégica doméstica de US$ 10 bilhões. No entanto, esses esforços enfrentam ventos contrários: as tarifas dos EUA sob a Seção 232 visam impulsionar o processamento doméstico, mas aumentam os custos para mineradores ocidentais, comprimindo ainda mais as margens.
Implicações Geopolíticas: Uma Janela Estreita
Os riscos estratégicos não poderiam ser maiores. Minerais críticos são essenciais não apenas para tecnologia verde, mas também para sistemas de defesa — desde caças F-35 até sistemas de orientação de mísseis. O Fórum Econômico Mundial classifica o confronto geoeconômico como o principal risco global para 2026. Analistas do ODI e RUSI alertam para uma janela estreita de 12 a 18 meses para as nações ocidentais diversificarem as cadeias de suprimentos antes que as dependências se tornem estruturalmente enraizadas.
Novos atores estão entrando na disputa. Estados do Golfo como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos estão implantando mais de US$ 100 bilhões para garantir ativos minerais, migrando do petróleo para a alavancagem mineral. Os Emirados assinaram um acordo de minerais críticos com os EUA em fevereiro de 2026. Enquanto isso, nações ricas em recursos como Indonésia, Chile e RDC estão alavancando o nacionalismo de recursos, impondo proibições de exportação, cotas e requisitos de processamento local.
A escalada da guerra comercial 2025–2026 complicou ainda mais o cenário. Os controles de exportação da China sobre terras raras e gálio demonstraram a disposição de Pequim em usar seu domínio de processamento como arma. A resposta dos EUA — incluindo 11 novos acordos bilaterais de minerais críticos e a criação do FORGE — sinaliza o reconhecimento de que o status quo não é mais viável. Mas, como observa o relatório da UNCTAD, o comércio de minerais críticos está sendo remodelado por 'forte política industrial e competição geopolítica', não apenas por forças de mercado.
Perspectivas de Especialistas
Dra. Sarah Ladislaw, pesquisadora sênior do Center for Strategic and International Studies, argumenta que o excesso de oferta cria risco e oportunidade. 'Preços baixos são uma faca de dois gumes. Eles tornam os insumos mais baratos para os fabricantes, o que é bom para a transição energética. Mas também prejudicam o caso de negócios para novas minas e refinarias fora da China. Os governos precisam usar essa janela para fornecer sinais de demanda estáveis e de longo prazo e desriscar investimentos através de acordos de compra e garantias de empréstimos.'
FAQ: Minerais Críticos e o Excesso de Oferta de 2026
O que é o paradoxo dos minerais críticos?
O paradoxo refere-se à situação em que um excesso potencial de oferta de minerais críticos como lítio e cobalto pode reduzir os preços, desencorajando investimentos em novas minas e instalações de processamento fora da China, aumentando assim a dependência de longo prazo da capacidade de refino chinesa.
Quais minerais são mais afetados pelo excesso de oferta de 2026?
Lítio e níquel estão experimentando o excesso de oferta mais pronunciado, com preços do lítio estabilizados em US$ 13.000–17.000/tonelada. O cobalto enfrenta um cenário misto devido às cotas de exportação da RDC, enquanto as terras raras permanecem fortemente controladas pela China. Espera-se que o cobre enfrente um déficit em vez de excedente.
Como a China está respondendo ao excesso de oferta?
A China está usando sua capacidade de processamento subsidiada pelo Estado para manter participação de mercado, enquanto também impõe controles de exportação sobre terras raras e outros minerais críticos para exercer alavancagem geopolítica. Seu 15º Plano Quinquenal provavelmente reforçará seu domínio no refino.
O que os EUA e a UE estão fazendo para diversificar as cadeias de suprimentos?
Os EUA lançaram o FORGE (uma coalizão de 55 nações) e o Projeto Vault (reserva de US$ 10 bilhões), mobilizando mais de US$ 30 bilhões. A Lei de Matérias-Primas Críticas da UE estabelece metas para 2030 de extração e processamento domésticos, com €3 bilhões alocados. Ambos estão buscando acordos bilaterais com países ricos em recursos.
Ainda há tempo para reduzir a dependência da China?
Analistas alertam para uma janela estreita de 12 a 18 meses. Construir capacidade de processamento competitiva fora da China pode levar uma década ou mais, mas investimentos estratégicos agora — incluindo acordos de compra, garantias de empréstimos e infraestrutura de reciclagem — podem começar a mudar o equilíbrio.
Conclusão: Um Momento Crucial
O paradoxo dos minerais críticos de 2026 apresenta tanto um aviso quanto uma oportunidade. O excesso de oferta pode levar os formuladores de políticas à complacência, permitindo que a China consolide seu domínio na etapa de processamento da cadeia de suprimentos. Alternativamente, pode fornecer uma janela para estocagem estratégica, investimento direcionado e construção de cadeias de suprimentos diversificadas e resilientes. As decisões tomadas nos próximos 18 meses determinarão se a transição energética capacita um mundo multipolar ou consolida uma nova forma de dependência de recursos. Como o relatório da UNCTAD deixa claro, as dinâmicas cambiantes do comércio de minerais críticos não são apenas uma história econômica — são um ponto de inflexão geopolítico.
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