Em uma série de movimentos sem precedentes no início de 2026, os aliados mais próximos dos Estados Unidos estão reduzindo silenciosamente sua dependência do dólar. A França repatriou todas as suas 129 toneladas de ouro do Federal Reserve de Nova York entre julho de 2025 e janeiro de 2026, obtendo um ganho de US$ 15 bilhões. O Canadá anunciou um fundo soberano de US$ 25 bilhões para reduzir a dependência financeira dos EUA. A participação do dólar nas reservas globais caiu de 71% em 1999 para 57% atualmente. Este artigo analisa como a política de sanções dos EUA — especialmente o congelamento de ativos russos e o conflito com o Irã — está paradoxalmente afastando aliados tradicionais do dólar, marcando a mudança mais significativa na ordem monetária global em 80 anos.
O Paradoxo das Sanções: Armar o Dólar
O dólar é a principal moeda de reserva desde Bretton Woods (1944). A militarização do dólar acelerou desde 2022, quando os EUA congelaram US$ 300 bilhões em reservas russas. 'Foi um divisor de águas', diz Sana Ur Rehman, do EBC Financial Group. 'Demonstrou que ativos em dólar não estão seguros se o país cair em desgraça.'
Repatriação do Ouro da França
A França repatriou 129 toneladas de ouro do Fed entre jul/2025 e jan/2026, em 26 transações, obtendo ganho de US$ 15 bi com o ouro acima de US$ 4.700/onça. Agora todo o ouro francês (2.437 t) está em Paris. A Alemanha debate a repatriação de ouro em votação de maio de 2026, pois detém 1.236 t nos EUA, e economistas alertam que o ouro 'não está mais seguro' lá.
Fundo Soberano do Canadá
Em 27/04/2026, o Canadá lançou o Canada Strong Fund, com US$ 25 bi iniciais, para investir em infraestrutura, energia limpa e agricultura, incluindo um produto de varejo com proteção de capital. O objetivo é reduzir a dependência financeira dos EUA, afirmam analistas.
Petroyuan e CIPS
O petrodólar, estabelecido em 1974, enfraquece. A Arábia Saudita não renovou precificação exclusiva em dólar em 2024 e fez swap de US$ 7 bi com a China. O Irã vende 90% do petróleo em yuan. A CIPS processou 1,22 tri de yuans (US$ 178 bi) em um dia em mar/2026. A infraestrutura de desdolarização dos BRICS se expande.
Números do Declínio
Segundo o FMI, a participação do dólar caiu para 56,32% no 2º tri/2025, a menor desde 1995, ante pico de 72% em 2001. Bancos centrais compram 1.000 t de ouro/ano. O euro detém 20% e o renminbi 2,1%. O dólar ainda liquida 88% das transações, mas a perda de monopólio é clara.
Implicações
A desdolarização reduz a alavancagem geopolítica dos EUA e pode aumentar custos de empréstimos (o 'privilégio exorbitante'). 'Mesmo mudanças marginais se acumulam', diz Rehman. O futuro da ordem monetária global está sendo escrito; 2026 pode marcar o início do grande desmonte.
Perguntas Frequentes
O que é desdolarização?
Esforços para reduzir o uso do dólar em reservas, comércio e finanças, visando maior independência e redução de riscos de sanções.
Por que agora?
O congelamento de reservas russas em 2022 e o conflito com o Irã mostraram que ativos em dólar podem ser congelados, levando aliados a buscarem alternativas.
Yuan substituirá o dólar?
Não a curto prazo; yuan tem 2,1% das reservas e controles de capital, mas ganha terreno no comércio de energia e via CIPS.
O que é petroyuan?
Petróleo liquidado em yuan, desafiando o sistema do petrodólar. A Bolsa de Xangai oferece futuros em yuan.
Quanto ouro a França repatriou?
129 toneladas, com ganho de US$ 15 bilhões. Todo o ouro francês (2.437 t) agora está em Paris.
Conclusão
O grande desmonte do sistema centrado no dólar está em curso, impulsionado por aliados. A transição será lenta, mas a direção é inequívoca. 2026 pode ser o ano em que essa mudança se tornou irreversível.
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