A crise cada vez mais profunda da indústria automobilística europeia levou a França e a Alemanha a uma negociação política de alto risco que pode remodelar as ambições de mobilidade verde do continente. Com a BMW a cortar 8.000 empregos esta semana—5% da sua força de trabalho global—e os concorrentes chineses a inundar os mercados mundiais, Berlim e Paris concordaram em trocar uma flexibilização da proibição planeada pela UE dos motores a combustão para 2035 por regras de produção 'Feito na Europa' mais rigorosas. O acordo, divulgado pelo Politico, marca uma mudança fundamental na política climática de Bruxelas e sinaliza que a preservação de empregos está agora a ter precedência sobre os calendários ambiciosos de eletrificação.
Contexto: A Proibição de Motores a Combustão da UE
A União Europeia pretendia proibir a venda de novos automóveis a gasolina e diesel a partir de 2035, uma pedra angular da estratégia climática do Pacto Ecológico do bloco. No entanto, o plano encontrou forte oposição dos países fabricantes de automóveis, especialmente a Alemanha e a Itália. “O governo está a dizer que tem de conduzir elétrico, mas o público não está pronto para isso,” disse Meindert Schut, apresentador do Nationale Autoshow. Comparou a política a uma fábrica de sapatos obrigada a produzir apenas Crocs: “Prefiro andar descalço. É isso que está a acontecer—Bruxelas está a impor um produto que os consumidores não querem.” Em dezembro de 2025, a Comissão Europeia já tinha sinalizado que iria atenuar a proibição, e o calendário de eliminação gradual dos veículos a combustível fóssil tem estado sob revisão constante desde então.
A Negociação Política Franco-Alemã
Há duas semanas, durante um conselho ministerial conjunto franco-alemão, as duas maiores economias da UE elaboraram um toma-lá-dá-cá. Paris, inicialmente um firme defensor da proibição de 2035, concordou em apoiar a sua flexibilização em troca do apoio de Berlim a regras de contratação 'Feito na Europa' mais rigorosas—medidas destinadas a impulsionar a produção nacional e proteger a indústria europeia do dumping chinês. “Os alemães e os franceses perceberam que precisavam um do outro: Berlim não pode perder a sua espinha dorsal automóvel, e Paris quer fortalecer a soberania industrial europeia,” explicou a correspondente da UE Michal van der Toorn.
O Impulso da Alemanha para Salvar a Sua Indústria Automóvel
Os fabricantes alemães foram os mais atingidos pelo colapso do seu outrora lucrativo mercado chinês, onde marcas locais como a BYD e a Leapmotor dispararam com modelos subsidiados pelo Estado. Embora a Stellantis detenha 51% da Leapmotor, a pressão competitiva está a aumentar. Um estudo alemão recente também concluiu que os jovens europeus ainda preferem fortemente os automóveis com motor a combustão dos fabricantes nacionais, reforçando a relutância de Berlim em abandonar a tecnologia.
A Exigência da França por Regras 'Feito na Europa'
A França tem defendido há muito uma proteção da política industrial europeia para contrariar a máquina de exportação chinesa. O novo quadro 'Feito na Europa' incentivaria—e em alguns casos exigiria—que os compradores públicos e privados favorecessem os produtos fabricados na UE. Isto está em linha com o patriotismo económico tradicional de Paris e espera-se que angarie o apoio da Itália, que também fez lobby contra a proibição dos motores.
Implicações para o Setor Automóvel Europeu
A entente franco-alemã é suscetível de influenciar outros Estados-membros. “A Itália tem sido igualmente vocal contra a proibição, e muitas economias mais pequenas acolhem bem qualquer escudo para as suas indústrias,” observou van der Toorn. No entanto, o acordo permanece frágil. A subida da AfD na Alemanha e do Rassemblement National de Marine Le Pen em França poderiam perturbar os planos governamentais atuais antes de o acordo ser finalizado. Os diplomatas de ambos os lados do Reno ainda estão a negociar os pormenores, e são esperadas mais concessões.
Schut também apontou para uma contracorrente pragmática: os fabricantes de automóveis chineses já estão a construir fábricas na Europa, criando empregos locais. “Os políticos devem perceber que os eleitores votam com as suas carteiras e com os seus pedais de acelerador. Se as pessoas não querem VEs, temos de encontrar outras formas de salvar empregos,” disse. O acordo caminha assim numa corda bamba entre proteger a indústria transformadora herdada e adaptar-se a um mercado global de veículos elétricos em rápida mudança.
FAQ
O que é a proibição de motores de 2035 da UE?
É uma proposta de regulamento que proibiria a venda de automóveis novos com motores a combustão interna na União Europeia a partir de 2035, forçando efetivamente uma transição para veículos elétricos.
Por que é que a França e a Alemanha estão a renegociar a proibição?
As perdas de emprego crescentes e a intensa concorrência dos fabricantes chineses tornaram o calendário original politicamente insustentável. Ambos os países procuram agora um compromisso que preserve o emprego, ao mesmo tempo que avança com os objetivos ecológicos.
O que são as regras 'Feito na Europa'?
São medidas de contratação e regulamentares destinadas a favorecer os produtos fabricados na UE, com o objetivo de impulsionar a indústria nacional e reduzir a dependência de cadeias de abastecimento estrangeiras—especialmente chinesas.
Como é que o acordo afetará os compradores de automóveis europeus?
Se a proibição for flexibilizada, os consumidores poderão continuar a comprar novos automóveis a gasolina e diesel para além de 2035. No entanto, o impulso para o 'Feito na Europa' poderá limitar a disponibilidade de veículos elétricos chineses mais baratos, mantendo potencialmente os preços mais elevados.
O acordo é definitivo?
Não. O acordo ainda está a ser negociado pelos diplomatas, e as mudanças políticas em França e na Alemanha poderão descarrilá-lo antes de se tornar lei da UE.
Fontes
Este artigo baseia-se na reportagem do Politico e em entrevistas conduzidas pela BNR Nieuwsradio com Meindert Schut e Michal van der Toorn.
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