Parlamento Europeu atrasa acordo Mercosul com decisão judicial

Parlamento Europeu vota para atrasar o acordo comercial UE-Mercosul, submetendo-o ao Tribunal de Justiça, um revés para Von der Leyen após protestos de agricultores.

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Parlamento Europeu aplica golpe na agenda comercial de Von der Leyen

Em uma decisão dramática que pode atrasar um dos mais importantes acordos comerciais da Europa por anos, o Parlamento Europeu votou para submeter o acordo comercial UE-Mercosul ao Tribunal de Justiça para revisão legal. A decisão, aprovada por uma estreita maioria de 334 votos a favor, 324 contra e 11 abstenções, representa um grande revés para a Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e sua visão de fortalecer a posição comercial global da Europa.

O que significa o processo judicial

A resolução do Parlamento Europeu efetivamente congela o processo de aprovação do acordo comercial inovador com o bloco sul-americano Mercosul, composto por Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. O Tribunal de Justiça agora examinará se o acordo está em conformidade com os tratados da UE, particularmente em relação à proteção ambiental e à capacidade da UE de manter seus próprios padrões. Este processo de revisão legal normalmente leva de 18 a 24 meses, o que pode adiar a implementação até 2028 ou mais tarde.

'A Europa está se colocando fora do jogo. O mundo está assistindo a Europa se isolar com base em informações incorretas e medo,' lamentou o eurodeputado do VVD, Bart Groothuis, expressando a frustração dos políticos pró-comércio.

Protestos de agricultores e divisão política

A votação no parlamento seguiu-se a protestos massivos de agricultores em toda a Europa, com milhares reunindo-se em Estrasburgo para expressar suas preocupações sobre importações baratas da América do Sul que minam a agricultura europeia. Os agricultores temem que o acordo permita a importação de carne bovina, aves e produtos agrícolas que não atendem aos padrões ambientais e de segurança da Europa.

A divisão política é clara: Renew Europe, Verdes/EFA e a Esquerda apoiaram a remissão ao Tribunal, enquanto o Partido Popular Europeu e os Socialistas e Democratas se opuseram. Esta divisão reflete tensões mais amplas entre a expansão comercial e a proteção das indústrias domésticas.

Implicações estratégicas para a Europa

O acordo UE-Mercosul, negociado por 25 anos, criaria uma das maiores zonas de livre comércio do mundo, com cerca de 780 milhões de consumidores. Os defensores argumentam que é essencial para reduzir a dependência europeia da China e dos Estados Unidos, enquanto estimula as exportações de carros, medicamentos e têxteis europeus.

A Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, chamou o acordo de 'uma mensagem forte para o mundo' durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, enfatizando sua importância estratégica. No entanto, o Chanceler alemão Friedrich Merz criticou a decisão do parlamento como 'lamentável' e alertou sobre 'uma avaliação errônea da situação geopolítica.'

O que acontece agora?

A Comissão Europeia agora enfrenta uma escolha difícil: prosseguir com a implementação provisória do acordo comercial enquanto aguarda o parecer do Tribunal, ou respeitar o desejo do Parlamento e esperar. Um porta-voz da Comissão reconheceu que a aplicação provisória permanece tecnicamente possível, embora politicamente controversa.

O atraso ocorre apenas semanas após 21 Estados-Membros da UE terem aprovado o acordo, com apenas Áustria, França, Hungria, Irlanda e Polônia votando contra. O acordo foi assinado cerimonialmente no Paraguai em 17 de janeiro de 2026, o que muitos pensaram ser o passo final para a implementação.

A eurodeputada do BBB, Jessika van Leeuwen, saudou a remissão ao Tribunal, chamando-a de 'necessária' para garantir uma boa revisão das implicações para a agricultura europeia e os padrões ambientais.

Enquanto a Europa luta para equilibrar ambições econômicas e preocupações domésticas, o atraso do Mercosul destaca os complexos desafios da diplomacia comercial do século XXI em um mundo cada vez mais polarizado.

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