Polícia norueguesa faz buscas na sede da Telenor por crimes contra a humanidade em Mianmar
A gigante norueguesa de telecomunicações Telenor está sob investigação formal e foi acusada de cumplicidade em crimes contra a humanidade em Mianmar, confirmaram as autoridades norueguesas a 15 de setembro de 2026. As acusações seguem-se a uma busca conjunta do Kripos e do PST, os serviços noruegueses de investigação criminal e de segurança, na sede da Telenor em Fornebu, Oslo.
O caso centra-se no período posterior ao golpe militar em Mianmar em 2021 e na venda da Telenor Myanmar Ltd (TML) a 25 de março de 2022. A polícia norueguesa alega que a TML transferiu repetidamente dados de clientes para o regime militar, responsável por crimes em larga escala contra parte da população.
Quais são as duas acusações contra a Telenor?
O Kripos acusou a Telenor de suspeita de cumplicidade em crimes contra a humanidade entre o golpe de 2021 e a venda da TML, em março de 2022. Uma segunda acusação, do PST, incide sobre suspeitas de violação da Lei de Sanções da Noruega: a TML terá vendido equipamento de vigilância proibido sem autorização do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Mianmar.
Segundo a polícia, as duas investigações sobrepõem-se, razão pela qual Kripos e PST realizaram a busca conjunta a 15 de setembro de 2026. Um porta-voz da Telenor disse à Reuters que a empresa coopera plenamente e sublinhou que nenhuma pessoa foi acusada.
Dados de clientes partilhados com os militares
As alegações não são novas. Em 2026, a organização sueca sem fins lucrativos Justice and Accountability Initiative apresentou uma ação coletiva civil contra a Telenor na Noruega. O grupo afirma que a Telenor recolheu nomes, moradas, números de passaporte, dados bancários, localização e históricos de chamadas de clientes que se opunham ao regime militar e os partilhou com o exército a pedido deste.
Em alguns casos, a empresa-mãe pediu explicitamente que a Telenor Myanmar cumprisse as exigências do exército, afirmou a organização, que argumenta que isso levou à execução do rapper e deputado Phoe Zeya Thaw, detido em novembro de 2021 e executado em julho de 2022.
A defesa da Telenor: uma situação impossível
A Telenor sustenta que ficou numa posição impossível após o golpe. Em comunicado à Reuters, afirmou que os funcionários arriscavam prisão, tortura ou pena de morte se recusassem ordens militares. Concluímos que não tínhamos escolha real e que não podíamos pôr em risco a vida dos nossos funcionários, declarou, acrescentando que exigências semelhantes foram feitas a todos os operadores móveis em Mianmar.
Responsabilização mais ampla pela vigilância nas telecomunicações
O caso é um dos primeiros em que um grande operador europeu enfrenta acusações criminais por alegada cumplicidade em crimes contra a humanidade ligados à vigilância autoritária. O Estado norueguês detém 54% da Telenor, o que aumenta a pressão política. As alegações ligam-se ainda a preocupações sobre a devida diligência em direitos humanos no setor: em dezembro de 2025, o Ponto de Contacto Nacional da Noruega concluiu que a Telenor falhou essa diligência em Mianmar.
Perguntas frequentes
Do que é acusada a Telenor em Mianmar?
De partilhar dados de clientes — nomes, moradas, localizações e registos de chamadas — com os militares após o golpe de 2021, e de violar a lei de sanções.
Quando vendeu a Telenor o negócio em Mianmar?
A Telenor Myanmar Ltd foi vendida ao grupo libanês M1 Group, com a transação concluída a 25 de março de 2022. A subsidiária passou depois a chamar-se ATOM.
Quantos clientes foram afetados?
Pelo menos 1.253 números tiveram dados partilhados com os militares. A TML servia mais de 18 milhões de clientes antes da venda.
Alguém foi executado por causa da partilha de dados?
Sim. O rapper e deputado Phoe Zeya Thaw foi detido em novembro de 2021 e executado em julho de 2022.
O que acontece a seguir?
Kripos e PST vão continuar a investigação conjunta. A Telenor diz cooperar plenamente e que nenhuma pessoa foi acusada até agora.
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