A 'Mãe de Todos os Acordos': Acordo Comercial UE-Índia na Fase Final
Após quase duas décadas de negociações complexas, a União Europeia e a Índia estão prestes a finalizar o que os funcionários chamam de 'a mãe de todos os acordos comerciais'. O acordo inovador, que deve ser anunciado durante a cúpula UE-Índia em 27 de janeiro de 2026, representa uma das parcerias econômicas mais importantes da década, abrangendo um mercado de aproximadamente 2 bilhões de pessoas e quase um quarto do PIB global.
Timing Estratégico e Mudanças Geopolíticas
O avanço ocorre em um momento crucial para ambas as economias. Com a Índia enfrentando negociações estagnadas com os Estados Unidos e a UE buscando diversificar suas parcerias econômicas, o timing não poderia ser mais estratégico. 'O momento é crucial, pois não apenas a Índia, mas também outros países asiáticos querem diversificar suas exportações e se tornar menos dependentes dos EUA,' diz Deepali Bhargava, analista da Ásia no ING.
A Índia foi duramente atingida por sanções americanas relacionadas ao comércio de petróleo russo, com tarifas de importação de até 50%. Apesar desses desafios, as exportações indianas cresceram cerca de 20% no ano passado, à medida que o país expandiu com sucesso seus mercados de exportação para além dos EUA.
Componentes Principais e Impacto Econômico
O acordo abrangente inclui 24 capítulos, abrangendo comércio de bens, serviços e investimentos. De acordo com o Secretário de Comércio Rajesh Agrawal, o acordo é 'equilibrado e progressivo' e expandirá significativamente o comércio bilateral, estimulará fluxos de investimento e aprofundará a integração econômica.
Uma das principais mudanças envolve tarifas automotivas. A Índia planeja reduzir as tarifas sobre carros da UE de até 110% para cerca de 40%, enquanto a UE reduzirá as restrições comerciais às exportações indianas de aço. 'Uma das coisas que espero ver neste acordo é uma redução das tarifas de importação indianas sobre matérias-primas e componentes de fabricação,' diz o economista e cientista político Pushan Dutt.
Mais do que Comércio: Uma Parceria Estratégica
Este acordo vai muito além das questões comerciais tradicionais. Durante as celebrações do Dia da República da Índia, a UE foi representada militarmente pela primeira vez, sinalizando uma potencial cooperação de defesa. 'Trata-se também de cooperação na área militar,' diz o economista Bert Burger, especializado na região Ásia-Pacífico. 'Assim, observam-se oportunidades para a participação indiana em iniciativas de defesa europeias, reduzindo a dependência da Índia em relação à Rússia.'
A parceria também inclui discussões sobre um pacto de mobilidade que facilitaria as viagens entre a UE e a Índia, e cooperação em iniciativas climáticas, cadeias de suprimentos e transferência de tecnologia.
Desafios e Setores Sensíveis
Nem todos os setores foram incluídos nas negociações. Produtos agrícolas e lácteos sensíveis foram excluídos para proteger os agricultores indianos, uma concessão que ajudou a avançar as negociações após anos de impasse. A UE também teve que fazer concessões, particularmente em relação ao relacionamento da Índia com a Rússia e questões regulatórias como o Mecanismo de Ajuste de Fronteira de Carbono.
De acordo com a análise do Carnegie Europe, esta parceria é impulsionada por mudanças geopolíticas, incluindo a retração americana e a assertividade chinesa, com a Índia representando um caminho democrático do meio para a Europa.
Cronograma de Implementação e Perspectivas Futuras
A verificação jurídica do texto do acordo está atualmente em andamento e deve levar 5-6 meses, com a assinatura formal provavelmente ocorrendo no final de 2026 e a implementação começando em 2027. A UE é o maior parceiro comercial de bens da Índia, com comércio bilateral de US$ 136,53 bilhões em 2024-25, e espera-se que este acordo aumente significativamente esses números.
'Tanto a Índia quanto a UE querem, principalmente com este acordo, desenvolver autonomia estratégica e resiliência econômica,' diz Burger. O sinal político é forte, com ambas as partes reconhecendo que este acordo poderia reformar a dinâmica do comércio global e criar novas oportunidades econômicas para cerca de um quarto da população mundial.
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