A reconstrução de US$ 70 bilhões de Gaza enfrenta grandes obstáculos: promessas de doadores colidem com enormes desafios logísticos. Com 84% dos edifícios destruídos e 61 milhões de toneladas de entulho, a recuperação levará anos, enquanto visões concorrentes complicam a reconstrução.
O Desafio de US$ 70 Bilhões para a Reconstrução
Conforme a poeira assenta sobre Gaza após o conflito devastador de dois anos, a comunidade internacional enfrenta uma tarefa monumental: reconstruir o que é descrito como uma das paisagens urbanas mais destruídas da história moderna. As Nações Unidas, o Banco Mundial e a União Europeia estimaram conjuntamente os custos de reconstrução em impressionantes US$ 70 bilhões - um aumento em relação aos mais de US$ 50 bilhões estimados anteriormente este ano. Este número representa a escala colossal da destruição, com 84% dos edifícios em Gaza danificados ou destruídos, chegando a 92% apenas na Cidade de Gaza.
Promessas de Doadores versus Realidade
Vários países demonstraram disposição para contribuir com a reconstrução de Gaza, de acordo com anúncios da ONU em outubro de 2025. No entanto, a história oferece uma perspectiva sóbria. 'Já vimos esse padrão antes - promessas são feitas, mas a entrega fica para trás,' diz a analista humanitária Sarah Johnson. 'Após o conflito de 2014, US$ 5,4 bilhões foram prometidos, mas menos da metade foi efetivamente entregue.' A situação atual parece igualmente desafiadora, com funcionários da ONU observando que, apesar das promessas, pouca ajuda está entrando em Gaza.
O Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas estima que US$ 20 bilhões serão necessários apenas nos próximos três anos para iniciar os esforços de recuperação. No entanto, no final de 2025, comboios de ajuda ainda lutam para alcançar áreas de fome devido a estradas danificadas pela guerra e rotas fechadas. Apenas 560 toneladas de alimentos entram diariamente em Gaza desde o cessar-fogo - ainda muito abaixo da escala de necessidade para os 2,3 milhões de habitantes da região.
Gargalos Logísticos e Desafios de Infraestrutura
Os obstáculos físicos para a reconstrução são desconcertantes. De acordo com o especialista em logística John Manners Bell, Gaza enfrenta um desafio logístico de US$ 80 bilhões. Com 80% dos edifícios danificados ou destruídos, a prioridade imediata é limpar montanhas de entulho - estimado em 61 milhões de toneladas misturadas com bombas não detonadas.
'Apenas a limpeza do entulho pode levar de 10 a 14 anos,' explica o engenheiro civil Ahmed Hassan. 'Precisamos de máquinas especializadas e importação de combustível, mas os pontos de passagem de fronteira criam enormes gargalos.' Os quatro principais pontos de passagem - Rafah, Kerem Shalom, Erez e Gate 96 - são inadequados para o volume de materiais de construção necessários.
Planos de longo prazo incluem o desenvolvimento de um porto marítimo (estimado entre US$ 200-250 milhões e US$ 7-10 bilhões) e a reabertura de um aeroporto, possivelmente operado por pessoal da ONU para abordar as preocupações de segurança israelenses. No entanto, esses projetos enfrentam obstáculos políticos e práticos significativos.
Visões Concorrentes e Ceticismo Local
Várias visões concorrentes surgiram para o futuro de Gaza. O plano "Fênix de Gaza", desenvolvido por palestinos, foi criado por 700 especialistas sem envolvimento do Hamas. Enquanto isso, propostas vazadas incluem a controversa "Gaza Riviera" de Donald Trump, com visões geradas por IA de desenvolvimento de luxo, e o plano "Great", que prevê cidades inteligentes movidas por IA sob tutela americana.
Os gazanos locais expressam profundo ceticismo sobre planos impostos de fora. Abu Iyad Hamdouna, cuja casa foi destruída, disse à BBC: 'A reconstrução pode levar 10 anos ou mais. Queremos reconstruir nossa terra natal à nossa maneira, não de acordo com a visão de outra pessoa.'
A Crise Humanitária Persiste
Apesar do cessar-fogo que entrou em vigor em 10 de outubro de 2025, as necessidades humanitárias permanecem enormes. De acordo com relatórios da OCHA da ONU, mais de 300.000 palestinos retornaram ao norte da Cidade de Gaza desde o cessar-fogo. Parceiros de segurança alimentar preparam 954.000 refeições diárias em 177 cozinhas, com um aumento de 47% na produção de refeições no sul. Nove padarias retomaram a produção de pão, com mais de 100.000 pães de 2kg diariamente.
A desnutrição, no entanto, permanece uma preocupação crítica. Programas de nutrição foram reiniciados com 262 toneladas de suplementos para 62.000 crianças, embora a triagem de desnutrição tenha caído para 95.000 crianças em setembro, com 12% identificadas como agudamente desnutridas. Serviços de saúde alcançam 400.000 pessoas através de 195 pontos de saúde funcionais, com apenas 14 dos 36 hospitais parcialmente operacionais.
Cronograma e Expectativas Realistas
Especialistas alertam que a reconstrução será um processo de pelo menos uma década. As prioridades imediatas incluem limpeza de entulho, tornar as casas seguras removendo destroços que podem esconder munições não detonadas ou pessoas desaparecidas, e fornecer abrigo básico com a aproximação do inverno.
'As condições para a reconstrução ainda não estão presentes,' enfatiza a funcionária do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas, Maria Rodriguez. 'Precisamos de uma boa base antes que a reconstrução em grande escala possa começar.' Isso inclui a libertação de reféns, arranjos de segurança e o estabelecimento de estruturas de governança funcionais.
O Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial estão examinando os complexos desafios, com foco em mecanismos de financiamento, estabilização econômica e sustentabilidade de longo prazo. Sua reunião em outubro de 2025 indica coordenação internacional contínua, mas a lacuna entre promessas e implementação prática permanece grande.
Com a aproximação do inverno no final de 2025, as necessidades mais urgentes são abrigo, comida e cuidados médicos. A reconstrução de casas, escolas, hospitais e infraestrutura seguirá, mas o cronograma depende de financiamento contínuo, estabilidade política e superação de imensos obstáculos logísticos. O povo de Gaza enfrenta um longo caminho para a recuperação, com seu futuro em equilíbrio entre promessas internacionais e realidades no terreno.
Nederlands
English
Deutsch
Français
Español
Português