Em 2026, o bloco BRICS+ acelera uma mudança histórica do comércio denominado em dólar, com liquidações em moeda local ultrapassando 67% e compras de ouro por bancos centrais atingindo níveis recordes. O lançamento do BRICS Pay e da 'The Unit' — um token digital de liquidação lastreado em ouro — sinaliza uma infraestrutura deliberada para finanças multipolares. Com a participação do dólar nas reservas globais caindo abaixo de 57% pela primeira vez em 30 anos, isso não é mais um debate teórico, mas uma mudança estrutural viva que investidores, formuladores de políticas e estrategistas corporativos devem entender.
Os Vetores Estruturais por Trás da Desdolarização
Três forças interligadas impulsionam a desdolarização em 2026. Primeiro, a armação de sanções financeiras — exemplificada pelo congelamento de US$ 300 bilhões em reservas russas em 2022 — levou nações a buscar alternativas ao sistema centrado no dólar. Segundo, a dívida soberana dos EUA, agora superior a US$ 36 trilhões, corroeu a confiança no dólar como reserva de valor. Terceiro, a fratura do sistema petrodólar, acelerada pela Arábia Saudita ao permitir a expiração do acordo de exclusividade com o petróleo dos EUA em 2024 e agora aceitar yuan, euros e criptomoedas, removeu um pilar da hegemonia do dólar.
A expansão do BRICS+ amplificou essas dinâmicas. O bloco agora compreende dez países — Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Etiópia, Irã, Emirados Árabes Unidos e Indonésia — representando mais de um quarto da economia global e quase metade da população mundial.
BRICS Pay e 'The Unit': Construindo Infraestrutura Alternativa
BRICS Pay Entra em Operação
Em 2026, o BRICS lançou o BRICS Pay, uma alternativa independente ao sistema SWIFT. A plataforma permite transações transfronteiriças diretas em moedas locais dos países membros, contornando o SWIFT e o dólar. Integra sistemas nacionais — Pix do Brasil, SPFS da Rússia, CIPS da China e UPI da Índia — para transferências mais rápidas e baratas. O banco central da Índia lidera a coordenação técnica, com implementação total prevista para a cúpula do BRICS de 2026. O sistema pode posteriormente incorporar moedas digitais de bancos centrais (CBDCs) e conectar-se a redes existentes como Visa e Mastercard.
The Unit: Um Token Digital Lastreado em Ouro
A iniciativa mais concreta é 'The Unit', um token digital de liquidação lastreado 40% em ouro físico e 60% em uma cesta de moedas do BRICS (real, yuan, rupia, rublo e rand), operando em uma blockchain Cardano permissionada. Um protótipo foi pilotado no final de 2025 pelo Instituto Internacional de Pesquisa para Sistemas Avançados (IRIAS), emitindo apenas 100 Units, cada uma vinculada a aproximadamente um grama de ouro. Embora críticos chamem de experimento simbólico, representa o primeiro esforço sério para criar uma alternativa resistente a sanções para liquidação comercial fora do sistema do dólar.
Compras Recordes de Ouro por Bancos Centrais
Bancos centrais de mais de 40 nações estão diversificando do dólar acumulando ouro em ritmo sem precedentes. Em 2025, compraram 1.237 toneladas — terceiro ano consecutivo acima de 1.000 toneladas. O Banco Nacional da Polônia foi o maior comprador pelo segundo ano, adicionando 102 toneladas para atingir 550 toneladas. Outros compradores notáveis incluem Cazaquistão (57 t), Brasil (43 t), Turquia (27 t) e China (27 t). Essa acumulação é uma proteção direta contra a depreciação do dólar e riscos geopolíticos.
Impacto na Estabilidade Financeira Global
A mudança para um sistema multipolar tem implicações profundas. Para mercados emergentes, menor dependência do dólar reduz exposição a choques da política monetária dos EUA e riscos de sanções. O Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) expandiu empréstimos em moeda local, oferecendo alternativa aos empréstimos do FMI e Banco Mundial denominados em dólar.
Para economias ocidentais, significa custos de endividamento mais altos, já que a demanda estrangeira por títulos do Tesouro dos EUA se torna menos confiável. A The Economist reportou em junho de 2026 que a demanda estrangeira por dívida americana está se tornando 'muito menos confiável', forçando os EUA a oferecer rendimentos mais altos.
No entanto, o domínio do dólar está longe de acabar. Ainda responde por 88% do volume de câmbio global e permanece a principal moeda de faturamento comercial. O euro mantém 20,25% das reservas alocadas, enquanto o yuan chinês subiu para 1,95% — ainda marginal. Como observa o professor Eswar Prasad, 'a liquidez profunda, efeitos de rede e apoio institucional do dólar garantem sua preeminência contínua. O que testemunhamos não é o fim do dólar, mas o início de um sistema de reservas mais diversificado e multipolar.'
FAQ: Entendendo a Desdolarização do BRICS+
O que é desdolarização?
Processo pelo qual países reduzem a dependência do dólar para comércio, transações financeiras e reservas cambiais, promovendo liquidações em moeda local, diversificando ativos (incluindo ouro) e construindo infraestrutura de pagamento alternativa.
O que é BRICS Pay?
Sistema de pagamento lançado em 2026 que permite transações transfronteiriças diretas em moedas locais, contornando SWIFT e dólar. Integra sistemas como Pix, SPFS, CIPS e UPI.
O que é 'The Unit'?
Token digital lastreado 40% em ouro e 60% em cesta de moedas do BRICS, operando na blockchain Cardano. Projetado como unidade de conta para liquidações comerciais fora do sistema do dólar.
Quanto ouro os bancos centrais compraram?
1.237 toneladas em 2025, terceiro ano consecutivo acima de 1.000 t. Principais compradores: Polônia, Cazaquistão, Brasil, Turquia e China.
O dólar perderá o status de moeda de reserva?
Embora a participação do dólar nas reservas tenha caído a 56,3% (mínima de 30 anos), ainda domina em câmbio (88%) e faturamento. Especialistas preveem transição gradual para sistema multipolar com euro, yuan, ouro e moedas digitais.
Conclusão: O Futuro Multipolar
A desdolarização de 2026 não representa o fim do dólar, mas o início de um sistema financeiro mais multipolar. Os BRICS+ construíram infraestrutura alternativa, acumularam ouro e expandiram o comércio em moeda local a uma massa crítica. O futuro das moedas de reserva globais provavelmente envolverá uma cesta de moedas, ouro e ativos digitais, oferecendo oportunidades e riscos para investidores e formuladores de políticas.
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