Em uma dramática escalada da rivalidade EUA-China sobre infraestrutura global crítica, a Suprema Corte do Panamá anulou a licença de operação da CK Hutchison Holdings, de Hong Kong, para dois terminais estratégicos no Canal do Panamá no final de janeiro de 2026. Em 23 de fevereiro, as autoridades panamenhas apreenderam formalmente os portos de Balboa e Cristobal, transferindo o controle provisório para a gigante dinamarquesa Maersk e a Mediterranean Shipping Co. (MSC), da Suíça. A medida gerou uma forte reação diplomática de Pequim, que retaliou paralisando projetos estatais no Panamá e ameaçando aumentar as inspeções de importação, enquanto a CK Hutchison iniciou procedimentos de arbitragem de US$ 2 bilhões contra o governo panamenho. A disputa cristaliza um confronto estratégico mais amplo: os EUA estão revertendo agressivamente as bases de infraestrutura chinesas na América Latina, e Pequim testa até onde pode retaliar sem desencadear uma guerra comercial total.
Contexto: Os portos no centro da crise
O terminal de Balboa, no lado Pacífico, e o de Cristobal, no lado Atlântico, estão nas entradas do Canal do Panamá, uma via de 82 km por onde transitam cerca de 40% de todo o tráfego de contêineres dos EUA anualmente. A subsidiária da CK Hutchison, Panama Ports Company (PPC), operava essas instalações desde 1997 sob uma concessão prorrogada em 2021. Juntos, os terminais movimentam aproximadamente 39% do tráfego de contêineres do Panamá e estão ligados a quase 5% do comércio marítimo global.
Em 29 de janeiro de 2026, a Suprema Corte do Panamá decidiu que a concessão original de 1997 e sua extensão de 2021 eram inconstitucionais, citando irregularidades no processo de contratação. A decisão ocorreu em meio a intensa pressão dos EUA sobre o Panamá para limitar a influência chinesa no canal.
A apreensão e transferência provisória
Em 23 de fevereiro, autoridades panamenhas entraram nas instalações de Balboa e Cristobal e assumiram o controle administrativo e operacional. O governo emitiu um decreto autorizando a Autoridade Marítima do Panamá a tomar posse imediata de guindastes, veículos e infraestrutura. Contratos operacionais temporários de 18 meses foram concedidos à APM Terminals (subsidiária da Maersk) para Balboa e à Terminal Investment Limited (afiliada da MSC) para Cristobal. O presidente panamenho, José Raúl Mulino, defendeu a ação, afirmando que não se tratava de "expropriação, mas de uma etapa necessária para garantir a continuidade operacional enquanto se prepara um novo marco de licitação concorrencial." A CK Hutchison classificou o decreto como "ilegal" e prometeu buscar todas as medidas legais.
Retaliação chinesa: pressão econômica e diplomática
A resposta de Pequim foi rápida e multifacetada. Dias após a decisão judicial, a China ordenou que empresas estatais paralisassem todos os novos projetos e negociações de investimento no Panamá. Esse congelamento ameaçou bilhões de dólares em acordos de infraestrutura, incluindo expansões ferroviárias, projetos de energia e melhorias portuárias que faziam parte da Iniciativa do Cinturão e Rota da China na região. A China também intensificou as inspeções alfandegárias sobre importações panamenhas, causando atrasos nos portos chineses. Em março de 2026, autoridades chinesas detiveram quase 70 navios com bandeira panamenha para inspeções prolongadas — número muito acima das normas históricas. O ministro das Relações Exteriores chinês, Wang Yi, acusou os EUA de "intimidar o Panamá para violar o direito internacional" e alertou que a China "tomaria todas as medidas necessárias para proteger os direitos legítimos das empresas chinesas." O governo chinês descreveu a decisão judicial como "totalmente ridícula" e produto da coerção geopolítica dos EUA na América Latina.
Reivindicação de arbitragem de US$ 2 bilhões da CK Hutchison
Em 24 de março de 2026, a Panama Ports Company, da CK Hutchison, apresentou uma reclamação adicional à Corte Internacional de Arbitragem da Câmara de Comércio Internacional, elevando a demanda total de arbitragem para mais de US$ 2 bilhões. A empresa alega "tomada ilegal, ações executivas extremas, apreensão de documentos e má conduta" por parte das autoridades panamenhas ao longo de mais de um mês. O caso legal deve durar anos.
Consequências geopolíticas: nova frente na rivalidade EUA-China
A disputa do Canal do Panamá tornou-se um teste decisivo para saber se os ativos comerciais chineses em pontos de estrangulamento globais críticos permanecem viáveis ou se tornam alvos primários na rivalidade EUA-China. Analistas alertam que a crise sinaliza uma erosão mais ampla das normas marítimas internacionais. Para a América Latina, a retaliação agressiva da China saiu pela culatra em alguns aspectos. A narrativa de diplomacia da armadilha da dívida ganhou novo impulso, reduzindo a influência de Pequim na região.
Perguntas frequentes
O que desencadeou a disputa pelos portos do Canal do Panamá?
A Suprema Corte do Panamá decidiu em 29 de janeiro de 2026 que a concessão de 1997 da CK Hutchison para operar os portos de Balboa e Cristobal era inconstitucional. A decisão seguiu anos de pressão dos EUA sobre o Panamá para limitar a influência chinesa.
Quem está operando os portos agora?
A Maersk (via APM Terminals) está gerenciando temporariamente Balboa, enquanto a MSC (via Terminal Investment Limited) opera Cristobal. Os contratos provisórios duram até 18 meses.
Como a China retaliou?
A China paralisou projetos estatais no Panamá, intensificou inspeções alfandegárias e deteve quase 70 navios panamenhos em março de 2026. Pequim também lançou uma campanha diplomática acusando os EUA de intimidar o Panamá.
Qual é a resposta legal da CK Hutchison?
A CK Hutchison entrou com pedidos de arbitragem internacional contra o Panamá que agora excedem US$ 2 bilhões, alegando tomada ilegal e má conduta.
Quais são as implicações mais amplas para o comércio global?
A disputa ameaça interromper um ponto de estrangulamento que lida com 40% do tráfego de contêineres dos EUA. Analistas alertam que, se os ativos chineses se tornarem alvos, as cadeias de suprimentos poderão sofrer graves interrupções, elevando custos e inflação em todo o mundo.
Conclusão: O futuro dos ativos chineses em pontos estratégicos
O confronto no Canal do Panamá representa um momento decisivo na rivalidade EUA-China. O resultado determinará se os investimentos comerciais chineses em infraestrutura crítica permanecem viáveis ou se tornam alvos primários em um conflito geopolítico crescente. O futuro dos investimentos chineses em infraestrutura no Hemisfério Ocidental está em jogo, e as cadeias de suprimentos globais observam atentamente.
Fontes
- CNBC: Panamá anula contratos da CK Hutchison
- Reuters: Reivindicação de arbitragem da CK Hutchison ultrapassa US$ 2 bi
- AP News: EUA e China se chocam por disputa portuária no Panamá
- Al Jazeera: EUA e países latino-americanos criticam retaliação chinesa
- Council on Foreign Relations: China na América Latina - março de 2026
- Maritime Executive: Hutchison amplia reivindicações de arbitragem para US$ 2 bi
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