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Projeto de Gás Ameaça Arte Aborígine Milenar

Alto Tribunal australiano analisa extensão de projeto de gás que ameaça arte rupestre de 50.000 anos em Murujuga, Patrimônio Mundial da UNESCO. ONU intervém no caso.

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O Alto Tribunal da Austrália está esta semana analisando uma controversa extensão do gigantesco projeto de gás North West Shelf da Woodside Energy, que guardiões tradicionais e cientistas alertam estar danificando a maior e mais antiga coleção de arte rupestre aborígine do mundo em Murujuga (Península Burrup), na Austrália Ocidental. O caso, ouvido em Melbourne de 21 a 24 de julho de 2026, contrapõe o valor econômico das exportações de combustíveis fósseis ao patrimônio cultural insubstituível da Paisagem Cultural de Murujuga — um sitio do Patrimônio Mundial da UNESCO inscrito há apenas um ano.

O que é Murujuga e por que está ameaçada?

Murujuga, que significa 'osso do quadril saliente' nas línguas Ngayarda do povo Yaburara, abriga mais de um milhão de petróglifos (gravuras rupestres) que datam de até 50.000 anos — mais antigos que Stonehenge e as Pirâmides de Gizé. O local contém a representação mais antiga conhecida de um rosto humano e imagens de megafauna extinta, como o tilacino (tigre da Tasmânia). Para os guardiões tradicionais — os povos Yaburara, Ngarluma, Mardudhunera, Yindjibarndi e Wong-Goo-Tt-Oo — a arte rupestre não é apenas história antiga, mas uma conexão viva com o Tempo do Sonho, a base da espiritualidade e lei aborígines.

No entanto, desde a década de 1970, a península se transformou no maior polo de exportação de combustíveis fósseis da Austrália. A planta de gás North West Shelf da Woodside, localizada em frente ao distrito de arte rupestre, processa gás natural liquefeito (GNL) para exportação — principalmente para mercados asiáticos — a uma taxa de aproximadamente 14,3 milhões de toneladas por ano. Em setembro de 2025, o Ministro Federal do Meio Ambiente, Murray Watt, concedeu uma extensão de 45 anos permitindo que a planta opere até 2070, decisão que gerou múltiplos desafios legais.

O processo de inscrição na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO para Murujuga enfrentou obstáculos significativos devido a preocupações com poluição industrial, mas a Austrália fez lobby com sucesso para a inscrição em julho de 2025, apesar dos alertas do órgão consultivo da UNESCO, ICOMOS.

Evidências científicas de danos

Emissões ácidas acelerando o intemperismo

Pesquisas científicas independentes, incluindo um estudo publicado no Nature Scientific Reports, descobriram que as emissões ácidas e ricas em nitrato das plantas de gás adjacentes estão acelerando o intemperismo natural das rochas ígneas de 2,7 bilhões de anos que contêm os petróglifos. As gravuras foram feitas removendo a camada externa vermelho-acastanhada de óxido de ferro para expor a argila pálida intemperizada por baixo. Poluentes industriais, incluindo amônia, ozônio e carbono negro, estão quebrando essa pátina protetora.

O professor Adrian Baddeley, importante estatístico da Universidade Curtin envolvido em pesquisa encomendada pelo governo, disse a repórteres: 'Nossos resultados preliminares de pesquisa mostraram inequivocamente que a poluição danifica as rochas. Quanto mais próximas as rochas estão da indústria, mais quebradiças elas se tornam.' No entanto, Baddeley se retirou do estudo após suas descobertas serem supostamente deturpadas no relatório final do governo, afirmando: 'Senti que não tinha outra escolha, porque quero poder dormir à noite. Para paz de espírito, devo insistir que a integridade da pesquisa permaneça intacta.'

Quatro bilhões de toneladas de emissões

Além da poluição local, grupos ambientais apontam para o impacto climático impressionante do projeto. A Australian Conservation Foundation (ACF) estima que a extensão bloqueará aproximadamente quatro bilhões de toneladas de emissões de gases de efeito estufa ao longo de sua vida útil — mais de uma década das emissões anuais totais da Austrália. O Climate Council observa que isso excede a produção total da Nova Zelândia em 2023. A ACF lançou um desafio no Tribunal Federal argumentando que o Ministro Watt considerou indevidamente os benefícios econômicos enquanto omitia avaliações críticas de danos climáticos.

A tendência global de litígios climáticos está ganhando impulso, com a Relatora Especial da ONU sobre o direito humano a um meio ambiente limpo, saudável e sustentável, Astrid Puentes Riaño, protocolando um pedido sem precedentes para intervir como amicus curiae no caso australiano — uma primeira vez para um oficial da ONU em um tribunal australiano.

Guardiões tradicionais lutam pela sobrevivência

Raelene Cooper, mulher Mardudhunera e ex-presidente da Murujuga Aboriginal Corporation, está na linha de frente da batalha legal. Em fevereiro de 2022, ela apresentou um pedido de proteção sob a Lei de Proteção ao Patrimônio Aborígene e Isleño do Estreito de Torres, mas afirma que nenhuma decisão foi tomada após mais de quatro anos de atraso. 'Estou cansada de esperar', disse Cooper ao Tribunal Federal em agosto de 2025.

Cooper também protocolou uma queixa na UNESCO alegando que o governo australiano violou a Convenção do Patrimônio Mundial ao aprovar projetos industriais que causam danos físicos e de emissões ao local. Falando em Murujuga, ela disse: 'Estamos lutando por nossa história, nossas histórias. Estamos lutando por nossa sobrevivência. Você pode ver as mudanças nas rochas e nas gravuras — elas estão menos nítidas do que antes.'

A equipe jurídica de Cooper argumenta que o ministro do meio ambiente estava ciente de evidências mostrando danos irreversíveis das emissões industriais antes da reunião do Comitê do Patrimônio Mundial da UNESCO em julho de 2025, mas fez lobby junto aos estados partes em contrário.

O movimento de direitos à terra indígena na Austrália tem visto vitórias significativas nos últimos anos, mas o caso Murujuga destaca a tensão entre desenvolvimento econômico e preservação cultural.

O que está em jogo no Alto Tribunal?

A atual audiência do Alto Tribunal em Melbourne está considerando três desafios inter-relacionados:

  • Friends of Australian Rock Art (FARA) argumenta que o ministro não considerou os danos econômicos e sociais do projeto, focando apenas nos supostos benefícios de empregos enquanto ignorava danos irreversíveis à arte rupestre.
  • Australian Conservation Foundation (ACF) alega que a aprovação considerou erroneamente benefícios econômicos do projeto de gás Browse não aprovado e não avaliou adequadamente os impactos climáticos.
  • O pedido de proteção de Raelene Cooper busca obrigar o governo a tomar uma decisão oportuna sobre sua ordem de proteção, que poderia impor condições às operações industriais próximas à arte rupestre.

Os casos estão sendo ouvidos em conjunto, com a Relatora Especial da ONU autorizada a intervir em maio de 2026. Uma decisão é esperada ainda este ano. A Woodside mantém que a aprovação seguiu uma revisão extensa e que condições estritas estão em vigor para proteger a arte rupestre. A empresa afirmou: 'A aprovação da extensão do projeto seguiu uma avaliação abrangente e minuciosa pelos governos federal e estadual, e de acordo com os procedimentos legais.'

Perguntas Frequentes: Arte rupestre de Murujuga e o projeto de gás

Qual a idade da arte rupestre de Murujuga?

Os petróglifos mais antigos em Murujuga são estimados entre 40.000 e 50.000 anos, tornando-os entre os mais antigos do mundo.

O que é o projeto North West Shelf da Woodside?

É a maior instalação de exportação de GNL da Austrália, processando cerca de 14,3 milhões de toneladas de gás por ano, principalmente para mercados asiáticos. A extensão permite operações até 2070.

Que evidências existem de danos à arte rupestre?

Estudos independentes, incluindo pesquisa da Universidade Curtin e um artigo no Nature Scientific Reports, descobriram que as emissões industriais ácidas e ricas em nitrato estão acelerando o intemperismo das superfícies rochosas, tornando-as mais quebradiças e fazendo com que as gravuras desapareçam.

Qual o papel da ONU neste caso?

A Relatora Especial da ONU sobre o direito humano a um meio ambiente limpo, saudável e sustentável fez um pedido sem precedentes para intervir no caso do Tribunal Federal australiano, argumentando que a Austrália é obrigada a prevenir danos ambientais significativos.

Quando será anunciada a decisão do tribunal?

A audiência do Alto Tribunal ocorre de 21 a 24 de julho de 2026, com decisão esperada ainda este ano.

Fontes

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