A participação do dólar americano nas reservas cambiais globais caiu abaixo de 57% pela primeira vez em 30 anos, marcando um marco histórico na aceleração da desdolarização. Segundo dados do FMI (COFER) do início de 2026, a participação do dólar foi de 56,3% no 1º trimestre, ante 71% em 2000 e 59% em 2020. Esse declínio consecutivo de oito trimestres reflete uma mudança estrutural impulsionada pelo BRICS+, que agora realiza 67% do comércio intrabloco em moedas locais e lançou infraestrutura como o BRICS Pay e o token digital 'The Unit', lastreado em ouro.
O que está impulsionando o declínio do dólar?
Três fatores principais aceleram a erosão da hegemonia do dólar. Primeiro, a weaponização das sanções financeiras — especialmente o congelamento de US$ 300 bilhões em reservas russas em 2022 — levou nações não alinhadas a buscar alternativas. Segundo, a deterioração fiscal dos EUA, com dívida nacional acima de US$ 39 trilhões, minou a confiança em ativos denominados em dólar. Terceiro, a expansão do BRICS+ criou um bloco que representa mais de 40% do PIB global (PPC) e 48,5% da população mundial, com taxas de crescimento econômico superiores às do G7 em mais de três vezes.
BRICS Pay: um sistema de liquidação sem dólar
Em 2026, o BRICS+ lançou o BRICS Pay, uma plataforma de liquidação transfronteiriça projetada para contornar o SWIFT e reduzir a dependência do dólar. A plataforma integra sistemas de pagamento nacionais — Pix do Brasil, SPFS da Rússia, CIPS da China e UPI da Índia — junto com moedas digitais de bancos centrais (CBDCs). Um recurso chave é o Sistema de Mensagens Descentralizado (DCMS), que opera sem um hub central, tornando-o resistente a interferências externas. O sistema deve reduzir custos de transação em 30-40% em comparação com o SWIFT e é posicionado como uma opção paralela, não uma substituição imediata.
The Unit: token digital de liquidação lastreado em ouro
Junto com o BRICS Pay, o bloco lançou 'The Unit', um token digital de liquidação lastreado 40% em ouro físico e 60% em uma cesta de cinco moedas do BRICS (real, yuan, rupia, rublo e rand). Opera em um blockchain Cardano permissionado, permitindo liquidação quase instantânea (menos de 10 segundos) para transações de energia e commodities. Em 2026, o sistema processa cerca de US$ 2,5 bilhões mensais. O token é um instrumento institucional para bancos centrais, não disponível para varejo.
Rede CIPS da China e progresso das CBDCs
O Sistema de Pagamento Interbancário Transfronteiriço da China (CIPS) processou mais de ¥180 trilhões (US$ 24,5 trilhões) em 2025, alta de 43% ano a ano, conectando mais de 1.500 instituições em 117 países. O Project mBridge, plataforma de CBDC liderada pela China com os bancos centrais da China, Hong Kong, Tailândia e Emirados Árabes Unidos, processou mais de US$ 55 bilhões até início de 2026. Esses frameworks de interoperabilidade de CBDCs criam uma infraestrutura financeira paralela que reduz a dependência de sistemas baseados em dólar.
Compras recordes de ouro por bancos centrais
Bancos centrais compraram 1.237 toneladas de ouro em 2025 — terceiro ano consecutivo acima de 1.000 toneladas — com China (estim. 290t), Índia (82t), Turquia (74t), Polônia (69t) e Cingapura (45t) liderando. Mais de 40 bancos centrais participaram, impulsionados pela tese de desdolarização desencadeada pelas sanções de 2022 à Rússia. O BRICS+ agora detém 17,4% das reservas globais de ouro, ante 11,2% em 2019. O ouro ultrapassou US$ 3.500 por onça, representando cerca de 30% dos ativos de reserva globais.
Sistema petrodólar sob pressão
O sistema petrodólar também está erodindo. As exportações de petróleo bruto da Arábia Saudita para a China precificadas em yuan subiram para cerca de 22% das vendas, e quase 20% do comércio global de petróleo é feito em moedas não-dólar. A participação do dólar nas mensagens SWIFT caiu para 49,7%, enquanto a liquidação intra-BRICS em moedas locais atingiu 67% em alguns corredores. No entanto, o dólar ainda liquida 88% das transações cambiais globais e 58% do comércio global, mostrando que a transição é gradual.
Implicações para finanças globais e geopolítica
A erosão gradual da hegemonia do dólar tem implicações profundas. Para os EUA, o declínio da participação nas reservas pode adicionar 10-15 pontos-base nas taxas de juros de longo prazo por ponto percentual de queda, aumentando os custos de empréstimos. Para mercados emergentes, a arquitetura monetária multipolar oferece maior soberania financeira e menor exposição a sanções. No entanto, especialistas alertam que a transição será desigual, com divisões internas no BRICS+ sobre o ritmo da desdolarização e ameaças dos EUA de tarifas de 100% sobre nações que trabalham para substituir o dólar.
Perspectivas de especialistas
"Estamos testemunhando a transformação monetária mais significativa desde Bretton Woods", diz a Dra. Elena Moretti, pesquisadora sênior do Global Financial Institute. "A dominância do dólar não está terminando da noite para o dia, mas a infraestrutura para um sistema multipolar agora está operacional. BRICS Pay e The Unit representam alternativas concretas que eram meros conceitos há cinco anos."
No entanto, nem todos concordam com a velocidade da mudança. "O dólar ainda domina 88% das transações cambiais e continua sendo a principal moeda de reserva", observa James Henderson, estrategista-chefe de moedas da Atlantic Capital. "O que vemos é uma diversificação gradual, não um colapso. O papel do dólar diminuirá, mas continuará central por décadas."
Perguntas Frequentes
Qual é a atual participação do dólar nas reservas globais?
No 1º trimestre de 2026, a participação do dólar nas reservas cambiais globais é de aproximadamente 56,3%, o menor nível desde 1995.
O que é o BRICS Pay?
É uma plataforma de liquidação transfronteiriça lançada em 2026 que integra sistemas de pagamento nacionais dos membros do BRICS+ para contornar o SWIFT e reduzir a dependência do dólar no comércio intrabloco.
O que é 'The Unit'?
É um token digital de liquidação lastreado em ouro lançado pelo BRICS+ em 2026, lastreado 40% em ouro físico e 60% em uma cesta de moedas dos membros, operando em blockchain Cardano para liquidação instantânea de comércio.
Quanto do comércio intra-BRICS é em moedas locais?
Aproximadamente 67% do comércio intra-BRICS+ é liquidado em moedas locais, ante menos de 20% há uma década.
A dominância do dólar está terminando?
A maioria dos especialistas concorda que a dominância do dólar está gradualmente se erodindo para um sistema multipolar, mas ele continua sendo a principal moeda de reserva no futuro previsível, ainda respondendo por 88% das transações cambiais globais.
Conclusão: Um futuro multipolar
Os desenvolvimentos de 2026 marcam um ponto de virada na tendência de desdolarização. Com alternativas operacionais como BRICS Pay e The Unit, compras recordes de ouro por bancos centrais e a expansão da rede CIPS da China, a infraestrutura para um sistema monetário multipolar está agora instalada. Embora o dólar não desapareça da noite para o dia, seu monopólio nas finanças globais acabou. O futuro das moedas de reserva globais será definido por concorrência, diversificação e a emergência gradual de uma nova ordem financeira.
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