No início de 2026, o BRICS lançou o 'The Unit', instrumento digital lastreado em ouro, e a Índia promoveu a interoperabilidade de CBDCs (rupia, yuan, rublo) para contornar o SWIFT. Este artigo analisa se essa estratégia desafia o dólar ou é simbólica, dado o endividamento dos EUA (US$ 39 tri) e tensões China-Índia.
Contexto: O Cenário de Confronto Geoeconômico
O Relatório de Riscos Globais 2026 do Fórum Econômico Mundial classifica o confronto geoeconômico como o principal risco global. A proposta de interoperabilidade de CBDCs da Índia, a ser apresentada na 18ª Cúpula do BRICS em Nova Délhi (12-13 de setembro de 2026), é o esforço de desdolarização mais concreto em décadas. O bloco agora com dez membros (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Etiópia, Irã, Indonésia, Emirados Árabes Unidos) representa mais de um quarto do PIB global e quase metade da população mundial. A expansão do BRICS em 2024 adicionou produtores de energia e parceiros estratégicos.
Estratégia de Dupla Via: A Unidade e a Interoperabilidade de CBDCs
A Unidade: Instrumento de Liquidação Digital Lastreado em Ouro
A Unidade é um sistema de pagamento lastreado 40% em ouro físico e 60% em uma cesta de moedas dos BRICS+, tokenizado na blockchain Cardano. Visa liquidação de comércio transfronteiriço com taxas abaixo de 0,3% e finalidade quase instantânea, contornando o SWIFT. O JP Morgan chamou de 'a proposta de desdolarização mais desenvolvida' para transações do BRICS+. Programas-piloto já estão em andamento.
Interoperabilidade de CBDCs: O Impulso da Índia para uma Ponte Rupia-Yuan-Rublo Digitais
Em janeiro de 2026, o Banco da Reserva da Índia propôs vincular as CBDCs dos BRICS — e-Rupia, yuan digital, Drex do Brasil, rublo digital — em um sistema que contorna o SWIFT. A e-Rupia já tem 7 milhões de usuários. O sistema pode reduzir o tempo de liquidação de 3-5 dias para segundos a custo quase zero. O Projeto mBridge da China processou US$ 55,5 bilhões até início de 2026. O e-CNY representa 95% do volume do mBridge. A plataforma mBridge é usada para liquidação de energia e commodities.
Métricas de Desdolarização: Progresso e Persistência
A participação do dólar nas reservas cambiais globais caiu para 56,3% no 2º trimestre de 2025, menor em 30 anos. Os BRICS+ realizam 67% do comércio intralocal em moedas locais. Bancos centrais compraram mais de 1.000 toneladas de ouro anualmente por três anos. O CIPS da China conecta 1.500 instituições em 117 países, processando US$ 25 trilhões anuais. No entanto, o dólar ainda liquida 88% das transações cambiais e 54% das exportações. A dívida dos EUA ultrapassou US$ 39 trilhões, mas o dólar mantém liquidez e confiança.
Atritos Internos: Divergência China-Índia
Apesar da retórica de desdolarização, há atritos significativos. Índia e China concordaram em apoiar mutuamente as cúpulas de 2026 e 2027, mas a desconfiança persiste. Rússia e Irã pressionam pela desdolarização devido a sanções, enquanto Índia e Brasil preferem uma abordagem multimoeda. A disputa de fronteira China-Índia continua a dificultar a integração. Os EUA ameaçaram tarifas de 100% sobre nações que tentam substituir o dólar, o que paradoxalmente aproximou Índia e China.
Perspectivas de Especialistas
O economista Jeffrey Sachs criticou as ameaças tarifárias dos EUA como 'bizarras' e 'autodestrutivas', argumentando que aceleram a desdolarização. O Banco de Compensações Internacionais deixou o Projeto mBridge em outubro de 2024 e lançou o Projeto Agorá, criando dois corredores de moeda digital concorrentes. Analistas do Boston Consulting Group projetam que o comércio da China com os BRICS+ crescerá 5,5% ao ano até 2034.
FAQ
O que é a Unidade no BRICS?
A Unidade é um instrumento de liquidação digital lastreado em ouro, lançado em 2026, com 40% em ouro físico e 60% em moedas dos membros, na blockchain Cardano.
O que é interoperabilidade de CBDCs no BRICS?
É a proposta da Índia para vincular as CBDCs dos BRICS — e-Rupia, yuan digital, Drex, rublo digital — permitindo liquidações diretas sem dólar ou SWIFT.
O BRICS pode substituir o dólar?
A maioria dos especialistas vê as iniciativas como uma mudança para um sistema multipolar, não substituição. O dólar ainda detém 88% das transações cambiais, mas sua participação nas reservas caiu para 56,3%.
Quando é a cúpula do BRICS de 2026?
A 18ª Cúpula do BRICS será em 12-13 de setembro de 2026, em Nova Délhi, sob a presidência da Índia.
O que é o BRICS Pay?
É uma plataforma de pagamento independente que integra sistemas nacionais como Pix, SPFS e CIPS, permitindo transações diretas em moedas locais sem SWIFT.
Conclusão: Mudança Simbólica ou Estrutural?
A estratégia de dupla via representa o impulso de desdolarização mais concreto em décadas, com infraestrutura operacional e adoção crescente. No entanto, o domínio arraigado do dólar, as divisões internas e a escala dos ativos financeiros em dólar sugerem uma transição multipolar gradual, não revolucionária. A cúpula de 2026 pode ser decisiva. Por enquanto, o mundo testemunha o surgimento de corredores financeiros paralelos — um centrado no dólar, outro multipolar — que coexistirão e competirão.
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