Num marco histórico para a segurança transatlântica, a NATO informou no seu Relatório Anual de 2025, divulgado em 26 de março de 2026, que, pela primeira vez, todos os Aliados Europeus e o Canadá cumpriram ou excederam a meta de gastos de defesa de 2% do PIB. Este feito, acompanhado de um aumento de 20% nos gastos em relação a 2024, assinala uma mudança estrutural na postura de defesa europeia e uma rutura decisiva com décadas de subinvestimento. O relatório, apresentado pelo Secretário-Geral da NATO, Mark Rutte, sublinha uma recalibração permanente da partilha de encargos e das capacidades de dissuasão da Aliança.
Contexto: Do Subinvestimento à Ação Coletiva
Desde a Cimeira do País de Gales de 2014, quando os membros da NATO se comprometeram a aumentar os gastos para 2% do PIB no prazo de uma década, apenas um punhado de países cumpriu a meta. A invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia em 2022 acelerou os aumentos orçamentais de defesa em toda a Europa. Em 2025, o esforço coletivo atingiu um ponto de viragem. De acordo com o Rastreador de Gastos de Defesa da NATO do Atlantic Council, os aliados europeus e o Canadá aumentaram os gastos em 20% em 2025, com todos os aliados a excederem agora a meta anterior de 2%. O histórico da meta de 2% da NATO mostra que em 2014 apenas três membros cumpriram o objetivo; hoje, todos os 32 o fazem.
Principais Impulsionadores do Aumento de Gastos
Ameaça Russa e Reforço do Flanco Oriental
A guerra em curso na Ucrânia e as ações hostis da Rússia — incluindo violações do espaço aéreo, ciberataques e sabotagem — levaram a NATO a reforçar maciçamente o seu flanco oriental. A Aliança dispõe agora de oito batalhões multinacionais da Força de Presença Avançada, do Báltico ao Mar Negro. Novas iniciativas como a Baltic Sentry, lançada após um incidente de corte de cabos submarinos em dezembro de 2024, mobilizam navios de guerra e aeronaves para proteger infraestruturas críticas. A Eastern Sentry, ativada em setembro de 2025 na sequência de violações do espaço aéreo polaco por drones russos, reforça o flanco oriental com caças e sistemas antídrones. Estas implantações da NATO no flanco oriental representam uma mudança de uma dissuasão reativa para proativa.
Novas Metas de Gastos: Rumo a 5% do PIB
Na Cimeira de Haia de julho de 2025, os aliados comprometeram-se com uma nova meta ambiciosa de 5% do PIB para a defesa — um aumento dramático em relação ao objetivo anterior de 2%. Antes da cimeira de Ancara em julho de 2026, os aliados deverão fazer um balanço dos progressos. A Polónia lidera a NATO com aproximadamente 4,12% do PIB, seguida pelos estados bálticos da linha da frente com 2,5–3%+. O debate sobre a meta de 5% do PIB da NATO tem gerado discussões intensas sobre sustentabilidade fiscal e requisitos de capacidade.
Impacto na Arquitetura de Segurança Transatlântica
O marco dos gastos redefine fundamentalmente a partilha de encargos na Aliança. Pela primeira vez, um aliado europeu — a Noruega — ultrapassou os Estados Unidos em gastos de defesa per capita. O aumento de 20% traduz-se em aquisições tangíveis: mais caças, navios de guerra, sistemas de defesa aérea e reservas de munições. A definição de despesas de defesa da NATO, atualizada em 10 de abril de 2026, inclui agora comandos cibernéticos, capacidades espaciais e assistência militar a aliados, alargando o âmbito do que conta para a meta.
No entanto, os especialistas advertem que os gastos por si só não são suficientes. A meta de 20% para equipamento e I&D continua a ser crítica para garantir que os fundos se traduzem em capacidades modernas. O debate sobre a eficácia dos gastos de defesa da NATO realça que as métricas de input devem ser acompanhadas de reformas orientadas para o output.
Perspetivas de Peritos
O Secretário-Geral da NATO, Mark Rutte, afirmou no prefácio do relatório anual: "Os gastos e a produção de defesa dos Aliados devem aumentar rapidamente, as forças armadas precisam de equipamento adequado para manter os cidadãos seguros, e a Ucrânia necessita de apoio contínuo para se defender." A Iniciativa de Segurança Transatlântica do Atlantic Council observa que o rastreador oferece uma imagem mais clara das contribuições aliadas durante uma "transformação única numa geração".
Desafios Futuros
Apesar do marco, subsistem desafios. Vários aliados ainda dependem de gastos deficitários para cumprir as metas, levantando questões sobre a sustentabilidade a longo prazo. A meta de 5% enfrenta resistência política em países com finanças públicas tensionadas. Além disso, a NATO precisa de colmatar lacunas de capacidade em áreas como produção de munições, defesa aérea e prontidão de tropas. Os desafios da base industrial de defesa europeia exigem investimento coordenado e normalização entre aliados.
FAQ
O que é a meta de gastos de defesa de 2% do PIB da NATO?
É um compromisso político assumido na Cimeira do País de Gales de 2014 para que cada membro da NATO gaste pelo menos 2% do seu PIB anualmente em defesa. Não é juridicamente vinculativo, mas serve de referência para a partilha de encargos.
Quais os países da NATO que mais gastam em defesa em 2026?
A Polónia lidera com ~4,12% do PIB, seguida pela Estónia, Letónia, Lituânia e Grécia. A Noruega ultrapassou agora os Estados Unidos em gastos de defesa per capita.
O que são a Baltic Sentry e a Eastern Sentry?
A Baltic Sentry é uma missão da NATO lançada no início de 2025 para proteger infraestruturas submarinas no Mar Báltico. A Eastern Sentry, ativada em setembro de 2025, reforça o flanco oriental com policiamento aéreo e capacidades antídrones.
Como é que a NATO define as despesas de defesa?
A definição da NATO inclui orçamentos dos Ministérios da Defesa para forças armadas, manutenção da paz, I&D, assistência militar e custos proporcionais de forças paramilitares treinadas em táticas militares. Exclui gastos civis.
A NATO vai aumentar a meta para 5% do PIB?
Na Cimeira de Haia de julho de 2025, os aliados comprometeram-se com uma nova meta ambiciosa de 5% do PIB. A cimeira de Ancara de julho de 2026 analisará os progressos em direção a este objetivo.
Conclusão: Uma Nova Base para a Defesa Europeia
O marco de 2026 representa mais do que uma conquista estatística — sinaliza uma mudança permanente no pensamento de segurança europeu. Com todos os aliados a cumprir a meta de 2%, novas missões Sentry operacionais e uma meta de 5% no horizonte, a postura de defesa da NATO entrou numa nova era. O desafio é agora manter o ímpeto, traduzir os gastos em dissuasão credível e garantir que a Aliança permanece pronta para ameaças em evolução.
Follow Discussion