Rússia abusa do sistema da Interpol para perseguir críticos no exterior

Documentos vazados revelam que a Rússia abusa sistematicamente do sistema de Notificação Vermelha da Interpol para perseguir opositores políticos no exterior, com mais de 400 notificações canceladas por serem politicamente motivadas.

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Grande vazamento revela abuso sistemático de ferramentas policiais internacionais

Um grande vazamento de um denunciante da Interpol expôs como a Rússia faz uso sistemático do sistema de busca da organização policial internacional para perseguir opositores políticos, empresários e jornalistas no exterior. Os documentos, obtidos pela BBC e pela plataforma de investigação francesa Disclose, revelam um padrão de abuso que persiste apesar das tentativas da Interpol de implementar controles mais rigorosos.

O sistema de Notificação Vermelha: Projetado para justiça, usado para perseguição

No centro da controvérsia está o sistema de Notificação Vermelha da Interpol – frequentemente descrito como o instrumento mais próximo de um mandado de prisão internacional. De acordo com as diretrizes oficiais da Interpol, as Notificações Vermelhas são destinadas a crimes graves como assassinato, estupro ou fraude, não para perseguição política. No entanto, os documentos vazados mostram que a Rússia usa essas notificações para solicitar a prisão de críticos do Kremlin, alegando que cometeram crimes.

'Este é um abuso sistemático de um sistema internacional projetado para cooperação policial,' disse uma fonte familiarizada com a investigação que pediu anonimato.

Escala do problema: Rússia lidera em reclamações

Os dados revelam números impressionantes: na última década, a Rússia gerou mais reclamações junto ao órgão fiscalizador independente da Interpol do que qualquer outro país – três vezes mais que a Turquia, a próxima na lista. Pelo menos 700 pessoas visadas por Notificações Vermelhas russas apresentaram queixas ao órgão de supervisão da Interpol, e em mais de 400 casos as notificações foram canceladas por serem consideradas politicamente motivadas.

'Os números falam por si,' observou Jago Russell, diretor da Fair Trials, uma ONG que há muito faz campanha por reformas na Interpol. 'Quando um país gera três vezes mais reclamações que o próximo, é claro que há um problema sistêmico.'

Safeguards falhos e abuso contínuo

Após a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia em 2022, a Interpol implementou verificações extras para evitar o abuso de seus sistemas. No entanto, de acordo com a investigação da BBC, essas medidas não conseguiram parar o abuso, com algumas regras mais rigorosas sendo supostamente relaxadas em 2025.

Uma revelação particularmente alarmante envolve a tentativa da Rússia de usar a Interpol para perseguir juízes e promotores do Tribunal Penal Internacional (TPI). Após o TPI emitir mandados de prisão para o presidente russo Vladimir Putin e outros, a Rússia teria solicitado Notificações Vermelhas para os funcionários do tribunal – pedidos que foram posteriormente rejeitados pela Interpol.

Consequências reais para indivíduos

O impacto humano desse abuso é devastador. Considere o caso do empresário russo Igor Pestrikov, que fugiu da Rússia em 2022 apenas para descobrir que estava na lista de busca da Interpol. 'Minhas contas bancárias foram congeladas, não pude viajar e vivi com medo constante de ser preso,' contou Pestrikov aos investigadores. Seu caso acabou sendo considerado politicamente motivado e cancelado, mas não antes de causar danos pessoais e financeiros significativos.

De acordo com a investigação da Disclose, esse padrão se estende a jornalistas, ativistas e figuras da oposição que fugiram da Rússia, criando o que um especialista chamou de 'uma rede global de medo' para dissidentes russos no exterior.

Resposta da Interpol e desafios contínuos

A Interpol afirmou que algumas das acusações decorrem de equívocos sobre como a organização funciona. A agência enfatiza que todos os pedidos de Notificação Vermelha passam por uma revisão de conformidade por uma força-tarefa especializada. No entanto, os críticos argumentam que o sistema permanece vulnerável a abusos por regimes autoritários.

As revelações chegam em um momento sensível para a cooperação policial internacional e levantam questões fundamentais sobre como equilibrar o trabalho policial legítimo com a proteção contra perseguição política. Enquanto a comunidade internacional lida com essas questões, centenas de indivíduos ainda vivem sob a sombra de possíveis notificações abusivas da Interpol.

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