Cúpula dos Oceanos Gera Grandes Áreas Protegidas e Financiamento

A Conferência da ONU sobre os Oceanos produziu compromissos históricos, incluindo a maior área marinha protegida do mundo, mais de 1 mil milhão de euros em financiamento para conservação e tecnologias de monitorização avançadas para proteger 30% dos oceanos até 2030.

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Cúpula Global dos Oceanos Leva a Acordos Históricos

A recente Terceira Conferência das Nações Unidas sobre os Oceanos (UNOC3) em Nice, França, terminou com o que os especialistas chamam de um 'momento transformador' para a proteção marinha global. Com mais de 15.000 participantes, incluindo mais de 60 chefes de Estado, a cúpula produziu o Plano de Ação Oceânica de Nice—uma estrutura abrangente com uma declaração política e mais de 800 compromissos voluntários de países em todo o mundo.

'Isto representa a ação coletiva mais significativa para a proteção dos oceanos na história da humanidade,' disse a bióloga marinha Dra. Evelyn Nakamura, que participou da cúpula como observadora. 'Estamos a ver os países a passar da retórica para compromissos reais e mensuráveis, com mecanismos claros de financiamento e monitorização.'

Expansão de Áreas Protegidas Atinge Novos Patamares

O anúncio mais dramático veio da Polinésia Francesa, que se comprometeu a criar a maior área marinha protegida (AMP) do mundo, com 5 milhões de quilómetros quadrados. Este único compromisso já representa um passo substancial em direção ao objetivo global '30 por 30'—proteger 30% dos oceanos do mundo até 2030.

Atualmente, apenas cerca de 8% da área oceânica global está sob designações de proteção, com zonas de proteção eficazes a cobrir apenas 5%. Os novos compromissos podem acelerar significativamente o progresso em direção à meta de 30%. 'Não estamos apenas a traçar linhas num mapa,' explicou a ministra do Ambiente da Costa Rica, Maria Fernandez. 'Estamos a estabelecer zonas com base científica, com bons planos de gestão e mecanismos de fiscalização.'

Mecanismos de Financiamento Inovadores São Centrais

Talvez o aspeto mais inovador da cúpula tenha sido o foco no financiamento sustentável. A Comissão Europeia anunciou um investimento de 1 mil milhão de euros para a proteção dos oceanos, enquanto a Alemanha comprometeu 100 milhões de euros especificamente para a remoção de munições subaquáticas—uma ameaça crescente para os ecossistemas marinhos.

A Nova Zelândia prometeu 52 milhões de dólares para a governação oceânica do Pacífico, e vários países discutiram modelos de financiamento inovadores, incluindo Fundos Fiduciários de Conservação, parcerias público-privadas e fluxos de receitas baseados no turismo. A investigação mostra que cada dólar investido em áreas marinhas protegidas retorna três vezes em benefícios através do emprego, proteção costeira e melhoria das pescas.

Um estudo recente publicado na ScienceDirect revelou que muitas AMPs sofrem de subfinanciamento crónico, com orçamentos anuais a necessitarem de aumentos de 6% a 141% para atender às necessidades de conservação. A cúpula abordou isto diretamente através da IUCN WCPA Practice Guidance for Protected and Conserved Area Finance, lançada em junho de 2025.

Tecnologias de Monitorização Avançadas Prometem Melhor Fiscalização

A cúpula destacou tecnologias de monitorização avançadas que vão revolucionar a proteção dos oceanos. O Projeto Open Ocean—uma iniciativa de cinco anos liderada pela Global Fishing Watch e SkyTruth—usa tecnologia de satélite e IA para monitorizar extensivamente as atividades humanas nos oceanos do mundo.

Previsto para lançamento total em 2027, esta plataforma mapeará todas as atividades oceânicas industriais e comerciais, incluindo pesca, produção de petróleo e gás, energia eólica offshore, mineração, aquicultura e navegação. 'Estamos a passar da conservação reativa para a proativa,' disse o diretor de tecnologia Mark Chen. 'Com a fusão de dados de satélite que combina infravermelhos, radar e imagens óticas, podemos rastrear navios, detetar atividades ilegais e monitorizar a poluição quase em tempo real.'

Outro avanço vem de ferramentas de escuta subaquática alimentadas por IA que detetam sons de espécies marinhas e atividades de pesca ilegal. A Telemetria Integrada Satélite-Acústica (iSAT) combina o rastreamento acústico subaquático com comunicação por satélite para monitorizar os movimentos da megafauna marinha em tempo real.

Tratado do Alto-Mar Ganha Momento

A cúpula viu mais 19 países a ratificarem o Tratado do Alto-Mar (Acordo BBNJ), elevando o número total de ratificações para 50, dos 60 necessários para a sua entrada em vigor. Este tratado é crucial para proteger a biodiversidade marinha em áreas fora da jurisdição nacional, que cobrem quase metade da superfície do planeta.

'O progresso na ratificação do Tratado do Alto-Mar é particularmente encorajador,' observou Nakamura. 'Mostra que os países reconhecem o carácter interligado dos ecossistemas oceânicos e a necessidade de quadros de governação adequados à escala do desafio.'

A Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas de Extinção (CITES) também participou, enfatizando o seu compromisso com a conservação marinha através de mecanismos comerciais regulamentados para espécies marinhas ameaçadas.

Olhando para 2026 e Além

O momento continua com a Conferência Our Ocean, planeada para 16-18 de junho de 2026 em Mombaça, Quénia. Desde 2014, esta série de conferências mobilizou mais de 2.900 compromissos no valor de aproximadamente 169 mil milhões de dólares americanos.

A próxima Conferência das Nações Unidas sobre os Oceanos em 2028 será coorganizada pelo Chile e pela Coreia do Sul, mantendo a pressão para um progresso contínuo. 'O que vimos em Nice é apenas o começo,' concluiu Fernandez. 'O verdadeiro teste será a implementação—transformar estes compromissos em proteção tangível para os nossos oceanos.'

Com planos de monitorização abrangentes, financiamento inovador e uma vontade política sem precedentes, o movimento de proteção dos oceanos parece estar a entrar numa nova era de eficácia e responsabilização.

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